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Paulo Cezar Caju Por Paulo Cezar Caju O papo reto do craque que joga contra o lugar-comum

Na Fórmula 1 (como no futebol) já fomos bailarinos, hoje somos robôs

O avanço tecnológico conseguiu reduzir drasticamente o encanto das competições, sejam elas no asfalto ou nos gramados

Por Paulo Cezar Caju - Atualizado em 8 jun 2020, 20h37 - Publicado em 8 jun 2020, 20h36

O botafoguense Fábio Damasceno e sua mulher Roberta Agnese conversavam sobre Fórmula 1 e como o avanço tecnológico conseguiu reduzir drasticamente o encanto das competições. Fico pensando como será daqui a 20 anos, pois do jeito que a coisa anda não precisarão mais de pilotos. Qual será o apelo emocional de uma premiação para máquinas? É bem parecido com o que está acontecendo com o futebol. Formam super-homens e se esquecem de que essa modalidade é uma arte. No automobilismo da década de 1970 e 80 os pilotos tinham que levar o carro no muque! A emoção era em dobro e não chamem isso de saudosismo.

Lembro que fui vendido para o Olympique de Marselha quando estava treinando com a seleção de 1974, na Floresta Negra, região montanhosa da Alemanha. Fizemos dois amistosos na Suíça e recebemos a visita de Emerson Fittipaldi, que morava em Lausanne. Quando a Copa terminou e fui morar na França, ele me convidou para assistí-lo competindo no circuito de Paul Ricard, autódromo construído, em Le Castellet, vizinho de Marselha.

Imaginem minha emoção quando estava conversando com ele no boxe quando começam a surgir Clay Regazzoni, Jackie Stewart, Carlos Reutemann, James Hunt, Patrick Depailler, François Cevert, Jacky Ickx, Ronnie Peterson, Didier Pironi e Gilles Villeneuve. Em determinado momento, um carro parou bem próximo e o piloto pisou no acelerador pedindo que saíssemos da frente: era Niki Lauda de brincadeira. Muitos deles eram fascinados por futebol e, mais ainda, pela seleção brasileira de 1958.

No final daquele ano, Emerson Fittipaldi sagrou-se bicampeão mundial. Eu e Jairzinho, meu companheiro de Olympique, comemoramos como um gol! Depois a Fórmula 1 ainda viu Alain Prost, Ayrton Senna e Nelson Piquet, que era meu vizinho, na Praia de Geribá, em Búzios. Encontrei José Carlos Pace em uma festa, no Barcelona. Acho que ele era palmeirense. São gigantes da Fórmula 1, pilotos consagrados, que nos faziam acordar de madrugada para vê-los correr.

A ausência desses ídolos faz despencar a audiência. Isso, claro, em qualquer competição. O futebol brasileiro atual carece de verdadeiros ídolos. Não adianta a mídia querer inventá-los se eles não existem. Neymar está chegando aos 30 e não vê ninguém pelo retrovisor. A referência do britânico Lewis Hamilton, seis vezes campeão do mundo de automobilismo, é Ayrton Senna. Seremos referências até quando?

Quem veio depois de Guga, no tênis, por exemplo? Vi Emerson correr no GP de Mônaco algumas vezes, circuito raiz, nas ruas do principado. Imagino que talvez alguns circuitos desapareçam ou sejam remodelados como aconteceu com nossos estádios, tudo em nome da modernidade. E assim caminha a humanidade, com máquinas e superatletas substituindo os artistas.

É como sempre digo e jamais cansarei de repetir, já fomos bailarinos, hoje somos robôs.

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