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Paraná Por VEJA Correspondentes Política, negócios, urbanismo e outros temas e personagens paranaenses. Por Guilherme Voitch, de Curitiba

Curitiba terá parque para o estudo de fósseis

Sob o solo de uma área de 16 hectares estão fósseis de animais únicos no mundo, como tatus, marsupiais e a predadora 'ave do terror'

Por Guilherme Voitch Atualizado em 22 mar 2018, 20h54 - Publicado em 22 mar 2018, 15h00

Uma área de 16 hectares, espremida entre um lixão desativado, linhas de energia e novos empreendimentos imobiliários, na divisa entre Curitiba e Araucária, guarda um dos mais importantes tesouros paleontológicos brasileiros, fundamentais para se entender o período do Paleógeno na América do Sul.

Sob o solo desse terreno aparentemente comum estão fósseis de espécies já extintas, animais que não são encontrados em nenhuma outra parte do mundo. Agora, uma parceria entre a Prefeitura de Curitiba e a Universidade Federal do Paraná (UPFR) vai transformar o local em sítio geológico e paleontológico com espaço para visitação e, principalmente, estrutura para garantir a pesquisa necessária.

“No Brasil são apenas dois locais com características semelhantes, em Itaboraí (RJ) e em Taubaté (SP), em que conseguimos encontrar fósseis deste período geológico. Aqui em Curitiba encontramos uma fauna, muito particular, de idade eocênica (divisão do Paleógeno)”, diz Fernando Sedor, pesquisador do Museu de Ciências Naturais da UFPR.

Entre as feras de Curitiba se destacam os “forusracídeos”, conhecidas como “aves do terror”. Com quase dois metros de altura, o animal tinha asas muito curtas e não conseguia voar. Ainda assim, podia chegar a 70 km por hora e usava seu bico de quase 60 centímetros para reinar absoluta no topo da cadeia alimentar da época. “A nossa ave do terror é, provavelmente, a mais antiga conhecida na América do Sul”, explica Eliseu Dias, pesquisador da Unioeste.

O morador mais exclusivo da área é o Proeocoleophorus carlinii, uma espécie primitiva de tatu, com peso e tamanho semelhante ao tatu canastra (um metro de comprimento e podendo pesar até 60 quilos). A descoberta do fóssil do animal rendeu um artigo na revista científica Journal of Mammalian Evolution.

Também foram encontrados no local fósseis de crocodilianos, peixes, anfíbios e mamíferos. A equipe que trabalha na área, formada por pesquisadores da UFPR e da UNIOESTE, estão descrevendo duas novas espécies de marsupiais que deverão ser publicadas em breve.

A Formação Guabirotuba

O terreno entre Curitiba e Araucária é um dos resquícios da chamada Formação Guabirotuba, uma bacia sedimentar localizada sob a capital paranaense, que, por uma série de características geológicas, conseguiu preservar fósseis de animais extintos com qualidade para pesquisa.

Assim como Itaboraí e Taubaté, a Formação Guabirotuba ajuda a se compreender a história iniciada há 60 milhões de anos, quando a América do Sul ficou isolada como um “continente-ilha” ao ter se separado da América do Norte e da Antártida. O isolamento propiciou o surgimento de uma fauna peculiar, produto dos invasores que haviam chegado antes e do isolamento e de novas formas nativas que evoluíram na América do Sul.

“Por tratar-se de uma área única no Brasil e uma da poucas da América do Sul que apresentam fósseis desta idade (Eoceno Médio-Superior), a preservação deste sítio é fundamental para se estudar e compreender a evolução dos animais em todo continente”, comenta  Sedor. O tombamento do sítio e a criação de um parque deve ser oficializada até o final do mês pela Prefeitura de Curitiba.

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