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Sem mimimi: por que Bolsonaro pode vencer as eleições

Bolsonaro mandou o politicamente correto para o inferno e se tornou o Malvado Favorito de um grupo que não para de crescer

Por Maicon Tenfen - Atualizado em 30 jul 2018, 00h53 - Publicado em 30 jul 2018, 00h19

Jair Bolsonaro é o convidado do Roda Viva de hoje à noite.

Há quem diga que será a primeira das muitas oportunidades reais que terá de se enforcar com a própria língua, mas isso não passa de um equívoco, mais um entre os tantos cometidos na avaliação de um político folclórico que veio crescendo e agora pode ser jogado na cadeira de presidente. Oh, meu Deus, será possível que os brasileiros queiram eleger uma piada? Sim, é possível, simplesmente porque o nosso sistema político tem se comportado como uma. Bolsonaro nunca foi o único palhaço do picadeiro, ainda que saiba fazer mais barulho. Não vai se enforcar com a própria língua pelo simples fato de que foi essa língua desordenada e incorreta que o fez subir nas pesquisas. Ele é mais ou menos como aquele personagem da novela Amor à Vida, o Félix (Mateus Solano), tão sincero em sua maldade que acabou desmascarando a hipocrisia dos mocinhos. Foi talhado para ser o vilão, mas tornou-se o herói de um público que já não pode dizer o que pensa ou o que sente.

Bolsonaro elogia a tortura, defende a pena de morte e deseja fuzilar os ladrões de galinha, mas, cá entre nós, o grosso do eleitorado se importa com as políticas que a esquerda relaciona aos direitos humanos? Nem um pouco. A cada vez que a expressão “direitos humanos” é mencionada no programa da Fátima Bernardes, os eleitores vão ao Facebook e gritam: “direitos humanos uma pinoia, de mim e dos meus filhos o governo não cuida!” É possível condenar uma mãe que pense dessa maneira? Basta prestar atenção nas redes sociais para perceber que as pessoas se sentem traídas. Há uma impressão geral de que, a começar pelos bandidos, todo mundo tem direito a tudo, menos os que estão trabalhando para pagar a conta no final. Aí aparecem os ícones da intelligentsia humanitária e soltam pérolas como as da Márcia Tiburi — “o assalto a bancos possui uma lógica humanista” — ou do Jean Wyllys — “a sociedade é ignorante e nós (políticos) temos que decidir por ela”. Dá pra imaginar a confusão que isso causa na cabeça de quem cria os filhos com o salário mínimo?

Os que rejeitam Bolsonaro dizem que ele é machista, racista, homofóbico, gordofóbico e tudo mais que existe de ruim no dicionário da correção política. Esse certamente é o pior erro dos seus adversários, não porque ele não seja preconceituoso, mas porque todos nós, homens ou mulheres, gays ou héteros, negros ou brancos, já fomos xingados com algum desses palavrões. Você acha que as cotas são má ideia? Racista! Ainda usa expressões como “minha mulher” ou “minha esposa”? Machista! Deixou escapar uma piada do Costinha? Homofóbico! E você, vizinha, sugeriu que a amiga fosse à academia? Gordofóbica maldita! Para usar uma expressão cara a quem se sente superior por ter aderido a essa onda neomoralista, estamos vivendo num “ambiente tóxico” em que uns puxam os tapetes dos outros com a desculpa de construir um mundo melhor através do vocabulário etc., etc. De repente surge o Félix, quer dizer, o Bolsonaro, e manda toda essa patavina para o inferno. Foi assim que ele virou o Malvado Favorito de um grupo que não para de crescer.

O mais curioso é que essas pessoas não são carecas marombados com suásticas tatuadas nas bochechas. São gente comum, com os pés bem plantados no cotidiano, pais de família, profissionais liberais, estudantes, mulheres que se sentem intimidadas com a vigilância das feministas. Boa parte desses eleitores não dava a mínima para a vida pública. Devido aos excessos da esquerda, descobriram subitamente que política não é apenas economia, mas também cultura e comportamento. Sentem-se ameaçados em seu estilo de vida e por isso se transformaram numa categoria peculiar de militantes: aqueles que não querem salvar os outros, mas a si mesmos. Como o cardápio político está pobre, optaram pelo prato mais colorido e espetaculoso, igualmente sem sal, mas que parece novo entremeio à mesmice e à falta de variedade. Vai ser engraçado, numa suposta vitória de Bolsonaro, ver como ficou a cara dos oportunistas politicamente corretos que querem salvar o mundo à custa dos outros, mas esse riso vai custar caro, muito caro.

Já escrevi aqui que Bolsonaro não teria condições de ser presidente de país nenhum. Isso vai ficar claro no Roda Viva de hoje, mas só para quem entende de administração pública. Para os demais o candidato continuará sendo, ou a encarnação do demônio, ou o humorista que fala tudo — mas tudo mesmo — que lhe passa pela cabeça.

 

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