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O Feminismo está causando mais danos que o Fascismo e o Moralismo juntos

Se seguisse as regrinhas que as feministas estão ditando para “construir um mundo melhor”, Nabokov escreveria no máximo um comercial de margarina

Existe uma confusão generalizada sobre o que seja o FEMININO, o FEMISMO e o FEMINISMO. Enquanto o Feminino é uma categoria que diz respeito aos aspectos sociais e pessoais que cercam a vida de uma mulher, o Femismo se contenta em ser um ódio displicente ao masculino, uma espécie de Machismo com sinal trocado, uma forma pueril de disseminar o preconceito e o desentendimento entre os gêneros. O Feminismo, por sua vez, é um conjunto de discursos teóricos postos ou não em prática que propõem mudanças profundas na sociedade. Possui em sua essência as reivindicações do Feminino, mas não é raro que se expresse com a precipitação e o rancor do Femismo mais vulgar.

E é natural que isso aconteça, simplesmente porque o Feminismo atingiu o status de movimento político, e os movimentos políticos, como sabemos, nem sempre representam a sua base de apoio. Um belo exemplo pode ser encontrado nas diferenças entre o Socialismo doutrinário e o Socialismo posto em prática. Um movimento que nasceu para defender os interesses dos operários e dos camponeses acabou por aprisioná-los através da propaganda e da violência. Quando temos certeza absoluta de que estamos fazendo a coisa certa pelo bem de uma determinada classe, basta um passo pequeno para transformar a nossa ação num autoritarismo semelhante ao que desejávamos combater.

Nos últimos anos, justamente por levantar uma bandeira necessária, o Feminismo vem revelando tiques que se assemelham a tendências como o Fascismo e o Moralismo. Assim como os antigos moralistas, muitas feministas se arrogam o direito de policiar as pessoas em suas vidas públicas e privadas. Depois de séculos de vigilância patriarcal, mulheres que nasceram num ambiente propício à liberdade se veem cercadas por “sacerdotisas” que, sob o pretexto de evitar a objetificação do corpo feminino, ditam regras de comportamento que causariam inveja a qualquer Madre Superiora da Idade Média. Rejeitar flores para não entrar no jogo dos machistas parece ser o trending top das listinhas mais exageradas.

(Aqui me atrevo a dar um conselho: se você é daquelas que recebem flores o tempo todo, a desculpa do feminismo até é válida para se livrar dos chatos. Agora, se as flores não costumam tocar a sua campainha com frequência, aceite ou devolva o buquê por sua própria conta e risco, e não porque obedece às ordens de alguma mestra-sabe-tudo que está enchendo a bolsa com palestras sobre empoderamento. Você, que é mulher, sabe como as mulheres são competitivas. Enquanto as bobinhas aprendem a se envergonhar da própria feminilidade, as espertalhonas põem as rosas no vaso e agarram as oportunidades que lhes interessam. Não é por acaso que as redes sociais estão se enchendo de ex-feministas. Ninguém aguenta ser fantoche por muito tempo).

Mas essa questão comportamental, no fim das contas, adquire tons de irrelevância a partir do momento em que certas agentes do Feminismo, com suas propostas de CENSURA a livros, filmes e obras de arte, “evoluem” de uma ressurreição caricata do Moralismo a um Fascismo que tende a se institucionalizar. De forma irrefletida, feministas que atuam na área cultural estão montando listas de clássicos antigos e modernos que devem ser, por ordem, dessacralizados, relativizados, demonizados, proibidos e finalmente banidos da face da terra. Na Espanha, por exemplo, querem que os ingênuos e indefesos estudantes do Ensino Médio deixem de ler Pablo Neruda. Motivo: o poeta seria um machista falocrata da pior estirpe!

Teve ampla repercussão o artigo da escritora catalã Laura Freixas contra Lolita, livro publicado por Vladimir Nabokov em 1955 e considerado por inúmeros críticos como um dos dez maiores romances do século XX. Segundo ela, em tradução livre, “Lolita é uma história de violência exercida por um homem contra uma mulher (…) que mostra, e implicitamente justifica, a violação de uma menina, a redução do ser humano feminino à condição de objeto para o prazer masculino”. Bem, tudo isso é verdade. A escritora só não pôde ou não quis entender que a história é narrada em primeira pessoa pelo próprio violador, Humbert Humbert, um psicopata obviamente não-confiável que tenta justificar os seus crimes no tribunal.

Em sua sanha de atacar o suposto patriarcalismo de Nabokov, Freixas lê a prosa literária, ambígua por definição, como se fosse um texto compromissado com verdades objetivas. Finge não perceber que o grande mérito de Lolita é mostrar em chave irônica como Humbert distorce os fatos, declarando-se apaixonado e seduzido pela menor (afinal, é o ponto de vista dele, um pedófilo) no intuito de ter a pena reduzida. Suas táticas são ardilosas e sua visão de mundo é repugnante. Uma rápida consulta na Wikipédia ao verbete “autor implícito”, conceito criado por Wayne Booth, explicaria à articulista que existe um abismo entre os pensamentos de um personagem e as opiniões da pessoa física que o criou.

Se essa inquisição literária for levada a sério, não restará uma única biblioteca aberta no Ocidente. Se Lolita é um canto de louvor à pedofilia, e não o seu oposto, o que dizer de Morte em Veneza, de Thomas Mann?  Como Humbert, Gustav von Aschenbach também é um homem de meia idade que de repente se vê atraído por Tadzio, um menino, e empreende uma jornada em busca do seu amor (que jamais se realiza). A diferença é que Aschenbach, longe de ser um criminoso, é apenas um homem infeliz tocado por uma beleza “que as palavras não podiam exprimir”. Um cínico perguntaria se os meninos não merecem proteção contra os tarados, mas a verdade é que Morte em Veneza, como Lolita, é uma obra complexa demais para os simplismos autoritários que nos rodeiam.

Não deixa de ser curioso que os livros de Thomas Mann e Vladimir Nabokov, respectivamente, sobreviveram à fúria ensandecida dos fascistas europeus e dos moralistas americanos. Sobreviverão ao Feminismo? Difícil prever, já que a tática, agora, é postular cartilhas que impõem a censura com antecipação. Se estivessem vivos e seguissem as regrinhas que as feministas (e o politicamente correto em geral) estão ditando para “construir um mundo melhor”, o máximo que Mann e Nabokov conseguiriam escrever é um roteiro para propaganda de margarina. Essa é a arte que teremos no futuro: humanitária, edificante, limpinha, medíocre, oportunista… e insuportavelmente chata.

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  1. AUGUSTO MARAJÓ

    Esses movimentos, assim como outros em moda, vêm e vão na história, mas têm uma coisa em comum: Conseguem ser mais preconceituosos e autoritários, do que, o preconceito e autoritarismo que dizem combater.

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