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Gilmar Mendes sabe que é um monstro

Malabarismos jurídicos e declarações inconsequentes fazem com que o ministro do STF seja o pior dos nossos pesadelos

Por Maicon Tenfen Atualizado em 15 set 2017, 15h08 - Publicado em 15 set 2017, 14h34

Gilmar Mendes é o inimigo público número um do Brasil.

Vejam que a façanha não é miúda. Ser o pior entre os piores é tão difícil quanto ser o melhor entre os melhores. O “bojudo fradalhão de larga venta” – para citar o mesmo Bocage que o Ministro aprecia – consegue deixar uma capital cheia de sátrapas na lanterninha a cada vez que bate o martelo para melar a Lava-Jato, ou seja, todo o santo dia.

– O ethos de um país não pode ser a luta contra a corrupção – disse Gilmar ao The Wall Street Journal.

Aliadas aos malabarismos jurídicos, essas declarações deixam claro que Gilmar Mendes conhece o seu papel no conto: é o monstro, o bicho-papão, o gigante Piaimã, o Grendel faminto de carne humana, o Balrog com o chicote flamejante, a entidade maligna que devora as esperanças e vomita a injúria sobre quem estiver no caminho.

O vilão é aquele que conhece bem a própria identidade e por isso não titubeia em agir a favor dos próprios desejos, ao contrário do herói, cheio de indecisão, que precisa encarar uma longa jornada até descobrir quem de fato é – eis a conclusão do antropólogo americano Joseph Campbell em seu livro O Herói de Mil Faces.

Não é o rosto paranormal de Gilmar Mendes que mete medo, mas as certezas – e sentenças – injustificadas que vive distribuindo a torto e a direito. A boa notícia é que os monstros sempre morrem no final. O bicho-papão perecerá, Piaimã será afogado num panelão de macarronada, Grendel encontrará a flecha certeira de Beowulf e Balrog cairá da ponte que se esfacela sob os seus pés.

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Enquanto isso não acontece – já que vivemos numa realidade ainda mais fictícia que a das histórias de monstros – limito-me a transcrever o restante do soneto citado acima, também fora de contexto, como Gilmar Mendes fez na despedida de Janot.

Pensando bem, até que o poema não é tão descontextualizado assim. Fala de um padre lascivo dado a declarações asnáticas que gosta de apontar nos outros os pecados que comete. Troquemos “padre” por “juiz” e “gritar contra as modas” por “dar sentenças espúrias” que estará pronta a interpretação.

 

Bojudo fradalhão de larga venta,
Abismo imundo de tabaco esturro,
Doutor na asneira, na ciência burro,
Com barba hirsuta, que no peito assenta:

No púlpito um domingo se apresenta;
Prega nas grades espantoso murro;
E acalmado o povo o grã sussurro
O dique das asneiras arrebenta.

Quatro putas mofavam de seus brados,
Não querendo que gritasse contra as modas
Um pecador dos mais desaforados:

“Não (diz uma) tu, padre, não me engodas;
Sempre me há de lembrar dos meus pecados
A noite em que me deste nove fodas!”

Bocage

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