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Ganha as eleições em 2018 quem prometer Bolsa-Carinho aos frustrados

Não me surpreenderia se alguém sugerisse a criação de uma Bolsa-Carinho para consolar os chorões que imploram por um pouquinho de atenção

Por Maicon Tenfen 22 mar 2018, 12h22

Outro dia, na rua, passando por um pequeno grupo que fazia barulho com paus e latas de querosene, presenciei uma cena que me deixou intrigado.

“Deve ser um protesto”, pensei — e acertei, embora não tenha compreendido, pelas palavras de ordem, contra quem ou o que estavam protestando.

Sei que tinha a ver com a tal Sociedade, pois é sempre ela, essa vilã, que traz a opressão, a injustiça, a fome na África e o genocídio dos golfinhos nos mares do norte.

Lá pelas tantas, no meio dos jovens, surgiu uma senhora com cara de vozinha, também ela batendo lata, que gritou em plena fúria dos pulmões:

— Eu tenho o direito de dar para quem eu quiser!

Houve aplausos e berros de apoio, mas só num segundo momento, porque no primeiro soou uma gargalhada botequineira para Sociedade nenhuma botar defeito. Por um brevíssimo instante, o teatro da manifestação desmoronou para revelar o ridículo do que estava acontecendo.

A vozinha não ouviu as gargalhadas — ou entendeu que faziam parte do incentivo — e abriu os braços como o bobo da corte shakespeariano que triunfa em sua sabedoria incontestável:

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— Tenho o direito, sim! De dar! Para quem eu quiser!

(Antes de prosseguir, faço parênteses para imaginar o que aconteceria se um senhor da mesma idade aparecesse com um tamborzinho para reiterar o seu direito de “comer quem eu quiser”. Não duvido que os manifestantes aprovassem os cascudos que o tarado tomaria dos PMs no ato da prisão).

Voltando à vozinha, é óbvio e evidente que ela tem o direito de dar para quem quiser, a menos que tenha escolhido manter o intercurso com um único homem ao longo da vida. O direito de escolha, aliás, é uma conquista da tal Sociedade que carrega a culpa de todos os males.

Ocorre que no mundo dos direitos as coisas não são tão simples quanto parecem — o que vale para o hipotético velhinho do tambor e para o resto da humanidade. O que acontece se ninguém se apresentar para satisfazer o desejo, digo, o direito da vozinha?

A pergunta implica um debate sociológico profundíssimo. Ao mesmo tempo que todo mundo tem direito a tudo — inclusive o de comer e ser comido —, ninguém tem o dever de viabilizar nada em relação ao outro. Aí o que chamamos de direito se transforma em discurso vazio, e a vozinha, como consequência, vai continuar dormindo sozinha.

Desse jeito não dá pra negar que a Sociedade seja injusta e cruel. Temos carências, medos, frustrações… e a maldita se recusa a passar a mão na nossa cabecinha. A solução é protestar. No meio da chorumela alguém sempre lembra que, ao contrário da Sociedade, o Estado é manipulável e pode resolver os nossos problemas artificialmente.

Não me surpreenderia se alguém sugerisse a criação de uma Bolsa-Carinho para acalmar as latas que clamam por um pouquinho de atenção. E me surpreenderia menos ainda se o candidato que prometesse a Bolsa aos chorões — hoje a maioria — vencesse as eleições no primeiro turno.

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