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Cruz e Sousa foi vítima de preconceito racial?

A obsessão pela cor branca na poesia de Cruz e Sousa se deve ao fato de que ele não gostava de ser negro?

Por Maicon Tenfen - Atualizado em 25 jun 2018, 01h10 - Publicado em 25 jun 2018, 01h06

Filho de escravos alforriados, João da Cruz e Sousa nasceu no dia 24 de novembro de 1864 em Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis, SC). Tornou-se um dos maiores poetas da história do Brasil e, possivelmente, de todo o mundo moderno. Segundo críticos de renome internacional, a poesia de Cruz e Sousa estaria em pé de igualdade com a de Rimbaud, Verlaine e Mallarmé. Recebeu, por isso, um apelido congratulatório, Dante Negro, numa lisonjeira comparação com o Dante Alighieri da Divina Comédia.

O curioso — ou o triste — é que, apesar de toda a sua importância, Cruz e Sousa teve uma vida de cão. Mesmo culto e talentoso, o fato de ser negro deu conta de excluí-lo da sociedade catarinense. Nomeado promotor público em Laguna, no sul do Estado, não pôde assumir o cargo porque os habitantes da vila protestaram com fúria e veemência. Desiludido, Cruz e Sousa arrumou as malas e se mudou para o Rio de Janeiro, então capital do Império, cidade cosmopolita que estaria acima dos preconceitos provincianos.

Nova decepção. O máximo que conseguiu foi um emprego como arquivista na estrada de ferro Central do Brasil. Colaborou com pequenos jornais e publicou dois livros, Missal e Broquéis, obras seminais do Simbolismo brasileiro que passaram despercebidas por crítica e público. Naquela época só havia espaço para a poesia patriótica e meio aristocrática à Olavo Bilac. Catarinenses como o poeta parnasiano Luís Delfino e o contista Virgílio Várzea, especialista em textos sobre o mar, conquistaram algum prestígio na capital do país. Para Cruz e Sousa, entretanto, sobraram apenas a pobreza e a decadência física.

Casou-se com Gavita, que passou a sofrer de problemas mentais, e teve quatro filhos que morreram prematuramente. Tuberculoso e endividado, buscou melhores ares em Minas Gerais, onde faleceu em 1898. Seu corpo voltou ao Rio num vagão destinado ao transporte de animais. Graças ao amigo Nestor Vítor, seus principais livros vieram a público postumamente, inclusive Últimos Sonetos, uma obra-prima do idioma. Não obstante o reconhecimento que se seguiu, o preconceito continuou — e continua — seguindo o Poeta do Desterro.

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Muitos estudantes do Ensino Médio ainda são obrigados a ouvir uma pérola inacreditável: a obsessão pela cor branca na poesia de Cruz e Sousa se deve ao fato de que ele não gostava de ser negro. Ou pior: tal obsessão seria resultado de uma “tara” por mulheres loiras! Dizem que o homem morre e a obra fica. Deve ser verdade, mas a obra não fica sozinha, pois com ela sobrevivem os estigmas e as injustiças.

Desse tipo de erro ninguém reclama nos livros didáticos.

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