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As Grandes Adúlteras da Literatura Universal

Várias personagens femininas do século XIX foram punidas por desafiar uma sociedade que jamais perdoou os que tiveram coragem de seguir os seus ideais

Por Maicon Tenfen - Atualizado em 23 jan 2018, 08h36 - Publicado em 23 jan 2018, 08h19

Qualquer lista de personagens marcantes da literatura universal ficaria incompleta sem as grandes adúlteras do século XIX. A escolha pode parecer confusa, uma vez que, no século áureo do romance, adultério é o que não faltava para preencher as tramas e chocar a sociedade. No bem da verdade, entretanto, houve apenas quatro grandes adúlteras na literatura oitocentista. O resto foi imitação.

Ou, por outra, as quatro grandes não passam de derivações ou complementações umas das outras. São elas: Ana Karenina, de Tolstoi; Ema Bovary, de Flaubert; a Luísa prima do Basílio, de Eça de Queirós; e a misteriosa Capitu, do nosso Machado. Originárias de culturas e idiomas tão diferentes, são incrivelmente semelhantes, ainda que mantenham suas características individuais.

Todas eram infelizes no casamento. De suas famílias modestas e subalternas, foram repassadas aos cuidados de homens mais velhos que ostentavam posses ou diplomas capazes de garantir um espaço de destaque na sociedade. Como era corrente na época, esses homens, embora com inegável sutileza, tratavam suas mulheres como mais um bem ou mais um certificado a ser exibido nos passeios e nos salões de baile.

Num primeiro momento, nossas futuras adúlteras se entregam alegremente ao papel de rainhas domésticas, lidando com os servos da casa, tocando piano durante os saraus e desejando educar os filhos que surgiriam para consolidar o empreendimento matrimonial. Cedo encontram-se com o tédio, com a rotina, com a descoberta de que eram bonecas decorativas e de que seus maridos, nem sempre canalhas ou desonestos, não passavam de… pois é…. maridos, homens comuns, fracos, demasiado humanos, tão diferentes dos príncipes e cavalheiros que povoavam as páginas dos romances que elas liam na juventude.

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É aqui que chegamos à grande e quase imperceptível semelhança que as quatro mantinham entre si. Todas eram ou foram leitoras vorazes de histórias românticas. E é isso que nos leva a duas intrigantes conclusões: 1) tornaram-se adúlteras porque primeiro foram leitoras e se deixaram envenenar pelo inconformismo típico da literatura; 2) não desafiaram as convenções por simples esporte sexual. Elas queriam mais do que isso, muito mais, mais até do que afirmar a sua “mulheridade”: elas queriam ser amadas como nos contos de fadas. Como se fosse uma menina de 15 anos, Ema Bovary suplica ao amante Rodolfo que pense nela quando o carrilhão tocar à meia-noite!

Por fim, resta a parte chata das histórias. Todas morrem no final, e algumas de forma violenta, suicidando-se com veneno ou se atirando embaixo de trens fumacentos. Seria um sinal de conservadorismo dos seus criadores, uma espécie de advertência subliminar que enviavam às leitoras da época, algo do gênero “estão vendo o que acontece com quem acredita nas bobagens que lê e sai traindo o marido por aí”? Talvez seja o contrário: o protesto contra a hipocrisia de uma sociedade que jamais perdoou os sonhadores e os que tiveram coragem de perseguir os seus ideais.

Leitura gera inconformismo, e inconformismo é sinônimo de êxtase — mas também de perigo! Essa talvez seja a grande lição das Anas, Emas, Luísas e Capitus que habitaram os romances do século XIX.

 

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