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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Visão da arquibancada (Por João Bosco Rabello)

O país é uma panela de pressão a ser destampada em 2021

Por João Bosco Rabello Atualizado em 18 nov 2020, 19h44 - Publicado em 12 nov 2020, 12h00

A polarização, lá e cá, fez do Brasil uma arquibancada das eleições nos Estados Unidos, como nunca antes se tivera notícia. A similaridade ideológica e de estilo dos presidentes – ambos candidatos à reeleição -, deu ares de uma disputa vital para os dois países no âmbito político.

O futuro imediato do Brasil, no entanto, estará muito mais determinado pelo contexto doméstico do que pelo resultado eleitoral americano, embora este importe em muitos aspectos.

Joe Biden não será mais ou menos amigo que Donald Trump, ainda que sua vitória aumente o isolamento do governo Bolsonaro em relação a questões em que tenta se impor pelo grito. Presidentes defendem pautas de interesse de seu país – o que no caso dos Estados Unidos é mais intenso ainda.

Bolsonaro entrará no terceiro ano de seu mandato sem ter o que entregar e pressionado pela urgência de uma equação que concilie o ajuste das contas públicas com medidas de efeito eleitoral, o que não parece possível sem riscos sérios.

O presidente tem hoje uma boa posição nas pesquisas que pode ser uma aparência apenas. Governou este ano com um Congresso Nacional em modo virtual, sem candidatos formais colocados à sua sucessão e num ambiente social ainda suportado pelo auxílio emergencial e benesses pontuais destinadas a amparar os mais atingidos pela Covid -19.

Não será esse o cenário em 2021. Na economia esgotaram-se as margens de manobra para cobertura assistencial. O auxílio emergencial cai ou diminui e ainda há pela frente a inevitável pauta que evite o abismo fiscal. Será mais um ano de sacrifício, daqueles incompatíveis com estratégias eleitorais, em que os maratonistas terão cruzado a linha de chegada exaustos e convocados a uma nova prova, sem pausa.

Por ora, Bolsonaro elege adversários sem que esses tenham formalizado suas pretensões. No momento mais difícil de seu governo é que o país conhecerá candidatos reais e viverá as consequências econômicas da pandemia.

No âmbito das micro e pequenas empresas, o rombo é nefasto, o que compromete significativamente o empenho pela retomada de empregos. Na arrecadação, evitar uma moratória tributária, como propuseram o ex-secretário da Receita Everardo Maciel e o Sebrae, só adiou o problema.

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O contexto externo vai continuar de pressão sobre o governo na questão ambiental, mas nada que já não exista. Assim como a inflexão na condução da questão pelo Brasil já é visível desde que o vice-presidente Hamilton Mourão assumiu efetivamente o comando sobre a Amazônia.

Esse é um problema que o Brasil terá que resolver, mais cedo ou mais tarde – e quanto mais tarde pior. O discurso continua hostil, mas a prática se mostra submetida a compromissos com a redução do desmatamento, como ficou reafirmado na visita de embaixadores europeus à região a convite de Mourão.

Em relação à Covid-19, cujo tratamento pelo governo federal correspondeu ao de Trump, não é boa política investir contra o esforço por uma vacina, o que ajuda a consolidar a imagem de um governo que desdenhou da pandemia. A conta, que chegou para Trump – cuja derrota muitos atribuem à má condução da questão sanitária – pode cair no colo de Bolsonaro também.

De concreto, visto de hoje, o país é uma panela de pressão a ser destampada em 2021. Em tal cenário, a aliança com o centrão valerá ao presidente da mesma forma que serviu outros: é um contrato de locação rescindível a qualquer momento. Ou seja, vale enquanto dura. E dura enquanto o governo tiver o que oferecer.

São essas circunstâncias que dão a falsa sensação de estagnação da oposição. Por ora, candidaturas são balões de ensaio, como a do ex-ministro e juiz Sérgio Moro e a do comunicador Luciano Huck. Ambos são tidos como cabeça de chapa, o que relativiza a conversa recente que tiveram.

Qualquer aliança em torno de Moro é difícil politicamente. Da direita à esquerda é consenso sua responsabilidade na marginalização da classe política. Esse diagnóstico parte do principio de que a Lava Jato atacou o joio, mas não ressalvou o trigo. Seu discurso foi permanentemente contra a classe política.

Isso faz de Moro um outsider, atrativo como moeda eleitoral, candidato de oportunidade, mas definitivamente apartado dos políticos.

João Bosco Rabello escreve no https://capitalpolitico.com/

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