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Todo o mundo e ninguém (por José Paulo Cavalcanti Filho)

Velha Política

Por José Paulo Cavalcanti Filho Atualizado em 30 jul 2020, 19h07 - Publicado em 7 mar 2020, 11h00

Em 1531, Gil Vicente escreveu Auto da Lusitânia. Encenado só no ano seguinte. Quando, na Europa, findou a Peste Negra – que mandou, aos céus, 25 milhões de almas. O que faz lembrar nosso Coronavírus. A história se repete, dando razão a Maquiavel (O Príncipe). Contra Marx (18 Brumário) e sua teoria de que só se reproduz como farsa. Penso nisso ao lembrar dois personagens dessa peça de teatro. Um é o rico Todo o Mundo. Que se apresenta dizendo: “Eu hei nome Todo o Mundo/ E meu tempo todo inteiro/ Sempre é buscar dinheiro/ E sempre nisto me fundo”. Enquanto seu contraponto é um pobre operário, Ninguém, que se anuncia: “Eu hei nome Ninguém/ E busco a consciência”. Donde “Todo o Mundo quer dinheiro” e “Ninguém quer trabalhar”.

No Brasil de hoje, imitando a trama desses personagens, há também dois grupos distintos. O primeiro está indignado com um Congresso que ainda pratica, descaradamente, a Velha Política. O toma lá, dá cá de antes. Especialmente depois que acabou a boquinha dos Ministérios reservados a financiar suas eleições (e não só para isso). Tanto que o fundo eleitoral proposto por Deputados e Senadores, para ficar em só um exemplo, foi de quase 4 bilhões. Quando o país que mais gasta, no financiamento público das campanhas eleitorais, é a França. Com 300 milhões. Achando pouco, agora pretendem o orçamento impositivo. Na tentativa de operar um parlamentarismo branco. Misturados, nesse bloco, desde quem quer só um país sem roubalheira, até os que prefeririam ver logo o Congresso fechado (um horror!).

O outro grupo insiste que tudo vai mal. Denuncia o fachismo, a censura, a falsa moral, e vê milicianos surgirem por toda parte. São os que desejam o impeachment do Presidente. E, agora, reagem contra as manifestações programadas. Como se o povo nas ruas, expressando sua opinião, pudesse ameaçar a Democracia. Sobretudo porque não é um protesto contra o Congresso, instituição. Mas, apenas, cobrando uma outra postura de Deputados e Senadores. Seja como for, não estamos bem.  Enquanto nosso país tiver só dois lados, o debate será sempre de baixa qualidade, estéril, pobre, sem sentido. A crise da razão é uma crise sem razão. Valendo, novamente, citar a farsa de Gil Vicente. Que conclui um debate, entre aqueles personagens, com a célebre frase: “Todo o Mundo é mentiroso e Ninguém diz a verdade”.

José Paulo Cavalcanti Filho.

jp@jpc.com.br

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