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Todo militante é chato

"Estrondo atômico das militâncias”

Sobre o tema chatice, é justo reverenciar a obra de Guilherme de Oliveira Figueiredo – Tratado Geral dos Chatos (terceira edição, publicada em 1963 pela Editora Civilização Brasileira) – escritor, autor e premiadíssimo dramaturgo. Seus desafetos diziam que se tratava um livro autobiográfico. O irmão do Presidente Figueiredo tinha valor intelectual para discorrer sobre a personalidade humana; de rir de si próprio; de levar o riso a sério. E se definia como um “mau-humorista”, certo de que “quem ri por último não ri melhor – apenas entendeu por último”.

Ninguém escapa da numerosa classificação feita pelo autor e nos serve para o autoconhecimento da chatice. Percebi que sou um mosaico de chatice, descoberta ao longo da leitura que não poupa, sequer as crianças, a partir do que ele denominou “o axioma de Herodes: toda criança é chata”.

Quando me deparei com o “chato catequético”, aquele que procura nos converter a qualquer coisa (dietas, religião e…política), imaginei outro axioma: todo militante é chato. Chato e perigoso porque flerta com o fanatismo e se torna uma bomba chiando quando abraça verdades absolutas e consegue levar suas irremovíveis convicções ao poder.

No Brasil, houve um “estrondo atômico das militâncias” na recente disputa eleitoral. Laços afetivos de amizade e parentesco não resistiram à intolerância dos chatos catequéticos alçados à condição de insuportáveis militantes.

Tá difícil de entender que a eleição passou; o jogo terminou e chegou a hora de compreender a responsabilidade de governar e de se opor ao governo. É o que a sociedade espera.

Quem passou pelo poder sabe que o seu exercício se organiza e se realiza através de círculos concêntricos, desde o círculo mais próximo, íntimo, aos vários círculos institucionais que são canais de diálogos e buscas de consensos, exatamente o inverso do que pretende a militância: aniquilar adversários.

A experiência histórica aconselha que, quanto mais próximo e influente é o círculo, mais prudência e menos visibilidade devem assumir seus integrantes. O líder pode ser vítima da imoderação.

O poder é um enigma e tem parte com o diabo. Sabendo disso, lá atrás, no reinado de Luis XIII (1601-1643), o ministro todo poderoso, Cardeal Richelieu, tinha como braço direito, o influente François Leclerc, o “Padré José” que usava um hábito cinzento, em contraste com a púrpura cardinalícia, para não ser notado.

Ainda assim, deu origem à expressão “eminência parda” para proteger quem manda nos bastidores. Ops, não existiam as mídias sociais.

Gustavo Krause é ex-ministro da Fazenda

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