Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Teste de fé (por Leonardo Barreto)

O país ainda não implementou a agenda liberal integralmente.

Por Leonardo Barreto Atualizado em 30 jul 2020, 19h06 - Publicado em 10 mar 2020, 13h00

O anúncio do PIB de 2019 alimentou uma verdadeira batalha de comunicação. Do lado do governo, mostrou-se que o crescimento veio dentro das estimativas, que o resultado do setor privado (2,75%) é superior ao do setor público (-2,25%) e que a comparação entre trimestres anualizada mostrou um crescimento de 1,7% em relação ao quarto período de 2018.

A oposição – que não se limita mais aos partidos de esquerda – desacredita o exercício feito de separação entre PIB público e privado e tenta explorar a alta cotação do dólar para decretar o fracasso econômico do governo. Faz parte do jogo.

Analistas de mercado ficaram decepcionados com a reversão de movimento da formação bruta de capital, indicador de potência dos investimentos, que recuou 3,3% no quarto trimestre depois de dois crescimentos seguidos. O item consumo das famílias também decepcionou, crescendo apenas 0,5%. Em resumo, não há percepção de uma trajetória de crescimento sustentável.

O que pensa quem decide? Essa é a questão

Dentro da batalha de narrativas, no entanto, o aspecto mais importante é o que acha o Congresso Nacional, o centro das decisões econômicas do país em tempos atuais. Haverá uma quebra de convicção no receituário sugerido pelo ministro Paulo Guedes, da Economia? Saber isso é importante porque sequer há outro modelo econômico à mesa.

Nesse sentido, a declaração mais grave foi dada exatamente pelo ator que tem sido enxergado como o fiador da agenda econômica, isto é, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM/RJ). Ao comentar o resultado do PIB, ele afirmou que o grande recado é que apenas o setor privado não resolverá. Ficou subentendido que houve uma defesa do retorno de gastos públicos, colocando em dúvida o compromisso com a agenda de reformas.

“A gente não consegue organizar um país apenas fazendo reformas e cortando, cortando, cortando. Isso tudo é fundamental, a reforma administrativa, previdenciária, novo sistema tributário. Agora, para o Brasil crescer, é importante que a gente olhe, pois o setor privado, sozinho, não vai resolver os problemas. Acho que a grande mensagem do PIB que saiu hoje é que a participação do estado será sempre importante para que o Brasil possa crescer e se desenvolver”.

Continua após a publicidade

Posteriormente, Maia deu nova declaração, de que não estava defendendo nenhuma irresponsabilidade fiscal e que as reformas devem servir para abrir espaço para que o governo volte a fazer investimentos.

O ponto é que o país ainda não implementou a agenda liberal integralmente.

Como disse o secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, o esforço fiscal que o governo deve fazer até 2022 equivale a 4% do PIB. Até agora, só conseguiu fazer 0,5%. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) Emergencial é fundamental para que a União, estados e municípios possa atacar gastos que hoje estão imunes à ação dos gestores.

O outro ponto é a agenda de privatizações e concessões que será a responsável por trazer o dinheiro grande, investimentos em infraestrutura em volume suficiente para impactar a dinâmica de crescimento do país.

Como medidas para acelerar essas iniciativas, o Programa de Parcerias e Investimentos (PPI) saiu da Casa Civil e foi para a Economia. O projeto de privatização da Eletrobras, essencial do ponto de vista de investidores estrangeiros, ainda não ganhou tração no Congresso.

O baixo desempenho do PIB e a guerra de narrativas, que não tem por principal objetivo discutir novas alternativas, será um teste de fé para o sistema político brasileiro. Desde o princípio do governo, alerta-se que o maior risco é ficar pelo meio do caminho, sem um modelo claro. Por isso, deve-se observar o grau de lucidez e de convicção com o qual os parlamentares tratarão o problema do crescimento econômico.

Leonardo Barreto é doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) – https://capitalpolitico.com/

Continua após a publicidade
Publicidade