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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Silêncio e solidão (por Gustavo Krause)

Cedo ou tarde, serão julgados os que desdenharam de uma doença desconhecida

Por Gustavo Krause - Atualizado em 28 Jun 2020, 04h57 - Publicado em 28 Jun 2020, 12h00

Todos são desiguais perante o vírus. Desde o oficial/atleta/campeão (atingiu a marca de 50 marinheiros e 50 polichinelos) ao moleque surfista, imunizado pela lama da miséria. A conclusão é exatamente igual ao desfecho da notável sátira de George Orwell, A Revolução dos Bichos que, ao pregar a igualdade em sete mandamentos, terminou na tirania dos porcos mais sabidos, equilibrando-se em duas patas e explorando a massa de suínos.

No mundo real, uns são mais iguais ou desiguais do que outros. A pandemia escancarou as desigualdades em escala global. Começou pelo ataque aos velhinhos, entre eles os velhinhos doentes; seguiu a sanha assassina salivando diante dos pobres, embora tenha chegado ao Brasil no confortável assento de primeira classe nos vôs internacionais.

Cedo ou tarde, serão julgados os que desdenharam de uma doença desconhecida; cedo ou tarde serão julgados os charlatães que prescreveram remédios milagrosos; cedo ou tarde, serão responsabilizados os que contribuíram para a contaminação de mais de hum milhão de pessoas e para o vale de lágrimas de centenas de milhares que perderam familiares, amigos, agravando a dor universal do amor ao próximo.

Na tragédia, o branco, cor da paz, passa ser, também, o símbolo da vida e a farda dos combatentes.

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Depois de cem dias de rigorosa quarentena, me reencontrei com o valor do silêncio e da solidão.

O silêncio me fez ouvir vozes sufocadas pela estridência da metrópole. Ao fim da tarde, contemplativo, olhava para o desértico Parque da Jaqueira e para a quietude da trepidante Av. Ruy Barbosa. Pois bem, naqueles instantes de transição do dia para a noite, escutava a algaravia dos pássaros que nada tinha de confusão de vozes, era, sim, o concerto dos pássaros anunciando o anoitecer tal qual fazem no amanhecer. Um espetáculo de natureza em paz, ainda que pouco duradora.

Neste silêncio musicado, tive vários encontros com a solidão. Somos gregários; nascemos para uma sobrevivência compartilhada e solidária; porém vivemos, disse a solidão, a angústia de tentar compreender o mundo e encontrar respostas definitivas às dúvidas que nos afligem; o máximo humano é o esforço do autoconhecimento através de profunda reflexão sobre si mesmo.

Este esforço é uma luzinha no fim do túnel e pode responder à necessidade de estar só. “Ouça-se”, dizia Gandhi. Não é tristeza, nem doença. Pode ser saudável e produtiva. É o que Karnal chama de “solitude” no livro “O Dilema do Porco-espinho – Como Encarar a Solidão”.

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Gustavo Krause foi ministro da Fazenda

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