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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Reinei no que nunca fui

Não conseguimos diferenciar versão do fato.

Por Elton Simões 23 jul 2018, 14h00

Até outro dia eu era daqui. Imaginava que sabia. Que algo compreendia. E explicação não faltava. Havia razão para tudo. Sempre escorava a frustração na certeza de que não era nossa falta.

Mas a vida vai e vem. Dá sempre jeito de tornar o improvável possível e o inesperado realidade. Nela, os momentos mais importantes são dia em que se nasce e, tendo sorte, o dia em que descobre porque nasceu. Em tempos cada vez mais sem sentido, parece que esse dia nunca vai chegar.

Vivemos, afinal tempos infernais. Condenados a rodar em círculos em busca de algo que faça sentido. Vagamos a esmo sem saber mesmo porque. Sem saber ou mesmo perguntar onde vamos. Sem direção alguma.

No Brasil, o inferno não é o outro. É o espelho. Por isso, a gente evita sempre que pode olhar para ele. Dói. Causa choque. Vira tristeza. E quem sabe dá até alguma indignação. Se é que tenha sobrado alguma.

Com sorte, estamos apenas confusos. Caos, já disseram, é apenas a ordem que não foi ainda decodificada. Fico aqui torcendo para que, quando finalmente resolverem o mistério, sejamos capazes de compreende-lo. Ajudaria pelo menos a ir levando.

Sabemos cada vez mais sobre cada vez menos até o dia que saberemos tudo sobre absolutamente nada. Já não conseguimos diferenciar versão do fato. A notícia do boato. O verdadeiro do falso. O certo do errado.

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Permanecemos atônitos. Assistimos histórias de homens sem vergonha vivendo em lugar sem lei. De cada história fica apenas o cinismo. Parece esse ser o nosso destino. Ser nação que pensa coisa alguma, onde, por isso, se fala qualquer coisa.

Faz tempo descumprimos nosso dever de sonhar. Deliramos, apenas. Acreditamos no nada. E por isso aceitamos qualquer coisa. Pedimos da vida apenas que passe discretamente, sem que percebamos.

O Brasil é terra estrangeira. Não abraça nem mesmo aos seus. Permanece incompreensível, misterioso, indecifrável. Talvez adormecido. Talvez indiferente. Ser brasileiro é pertencer ao que não está. E desejar o que nunca pode ser.

Um dia já fui daqui. Hoje regresso estrangeiro. Forasteiro do que vejo e ouço, velho de mim. Já vi tudo, ainda o que nunca vi, nem o que nunca verei. Eu reinei no que nunca fui.

OBS: Inspirado em obras de Fernando Pessoa

 

Elton Simões mora no Canadá. É President and Chair of the Board do ADR Institute of BC; e Board Director no ADR Institute of Canada. É árbitro, mediador e diretor não-executivo, formado em direito e administração de empresas, com MBA no INSEAD e Mestrado em Resolução de Conflitos na University of Victoria. E-mail: esimoes@uvic.ca . 

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