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Queiroz desfaz tese de perseguição e bandeira anticorrupção (João Bosco)

Bolsonaro detonou todas as pontes

Por João Bosco Rabello Atualizado em 30 jul 2020, 18h51 - Publicado em 19 jun 2020, 10h00

À investigação deflagrada nesta terça (16), por ordem do Supremo Tribunal Federal, a mais ampla já ocorrida contra a base de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, soma-se a prisão de Fabrício Queiroz, o ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro, que aumenta a temperatura política no seu grau mais elevado até agora.

Não é possível ainda avaliar, de forma isolada, a extensão da prisão de Queiroz. Ela precisa ser olhada no contexto de crise em que a reação do presidente da República poderá determinar a velocidade de seu desfecho.

É possível afirmar que o presidente hoje é um homem atormentado pelas consequências do conflito institucional que, em grande medida, deflagrou para evitar que sua família fosse atingida pelas investigações. Era, no entanto, uma questão de tempo para que o tumor representado pelo mandato estadual de Flávio Bolsonaro fosse alcançado.

Com a prisão de Queiroz, sob a suspeita de comandar a “rachadinha” em parceria com Flávio Bolsonaro, o governo vê ruir a bandeira do combate à corrupção, principal fator da vitória eleitoral e da fidelidade de uma base que ainda vinha mantendo apoio, embora em clara desidratação.

O enredo, em tese, explica a saída de Sérgio Moro com a queixa principal de não ter recebido apoio do presidente às medidas anticorrupção que propôs no seu curto mandato como Ministro da Justiça. Com a chegada do Centrão, representado por parlamentares igualmente identificados com a corrupção – alguns ex-presidiários -, Moro viu se extinguir qualquer perspectiva que ainda pudesse alimentar em relação ao principal objetivo de sua permanência no governo.

A presença constante no Palácio do Planalto do advogado Frederick Wassef, em cuja casa se escondia Queiroz, é de difícil defesa. Além de participar de diversos eventos oficiais, como na quarta-feira (16) na posse do novo ministro das Comunicações, Fábio Faria, o advogado de Flávio Bolsonaro esteve há 20 dias no Planalto em audiência com o presidente da República.

Esvazia-se assim a narrativa de perseguição política movida contra o Supremo Tribunal Federal (STF), na medida em que a polícia civil de outro Estado conduz uma operação completamente apartada do contexto da crise institucional em curso em Brasília.

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Trata-se de uma ação policial, autorizada pela Justiça, em busca de um foragido encontrado na casa do advogado contratado pela família do presidente e que com ele se encontra frequentemente.

O esvaziamento da narrativa de perseguição, por sua vez, coloca os militares, hoje confundidos com o governo, em posição mais incômoda do que já estavam. O apoio ao presidente, agora, não se restringe mais apenas contra o STF. O abraço das Forças Armadas com Bolsonaro terá de ser mais apertado se quiserem prosseguir em sua defesa incondicional.

O mais provável é que a maioria silenciosa do oficialato, onde figura o comandante do Exército, general Edson Pujol, ganhe oxigênio para aumentar a pressão para que as Forças Armadas se comportem como instituição de Estado – e não de governo.

É possível que o presidente da República esteja no momento de maior isolamento político. O processo de deterioração está avançado. A desconfiança e hostilidade semeadas por Bolsonaro contra o Judiciário e o Legislativo o faz um presidente que queimou as pontes às quais poderia recorrer em momentos de maior instabilidade.

É importante entender esses acontecimentos como parte de um processo que começa a ter na descontinuidade do mandato presidencial um dos seus fechos possíveis.

 

 

(João Bosco Rabello é jornalista profissional há 40 anos em Brasília e sócio-editor do site Capital Político –capitalpolitico.info)  

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