Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês
Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Por que não abandonar Bolsonaro? (por Por Juan Arias)

Para que se divirta apenas com seus brinquedos de morte

Por Juan Arias Atualizado em 30 jul 2020, 18h52 - Publicado em 13 jun 2020, 10h00

O presidente gosta de brincar mais com a morte do que com a vida. Tem mais vocação de demolidor que de construtor, de guerreiro que de diálogo, de caçador de inimigos, verdadeiros ou imagináveis

O presidente Jair Bolsonaro gosta de brincar mais com a morte do que com a vida. Tem mais vocação de demolidor que de construtor, de guerreiro que de diálogo, de caçador de inimigos, verdadeiros ou imagináveis, que de impulsor da paz. A mentira lhe cai melhor que a verdade.

Bolsonaro não será derrubado por suas bravatas ameaçando com um golpe. A tragédia do coronavírus o tirará da presidência por seus crimes contra a humanidade. Será derrotado pelo pranto das famílias de luto que nem poderem se despedir de seus entes queridos.

Bolsonaro zombou da epidemia desde o primeiro momento. Minimizou sua força destrutiva e continuou a fazê-lo enquanto os mortos se acumulavam nos cemitérios. Quando os números das vítimas o estavam desnudando de sua cegueira, tentou culpar os governadores, os prefeitos e a própria OMS.

Não apenas negou sempre as evidências como adotou uma atitude de provocação, desobedecendo pública e descaradamente a todas as normas de prevenção da ciência e da medicina. Desarmou o Ministério da Saúde de médicos e o armou de militares. Quando a epidemia se espalhou e começou a aparecer como uma das mais letais do mundo, chegou ao cúmulo do cinismo. Tentou esconder a realidade impedindo que fossem publicados os números da catástrofe. Decidiu matar até os mortos.

Se existe algo, no entanto, que hoje está unindo os brasileiros sem distinção é o medo da epidemia e a solidariedade com as famílias atingidas pela dor da perda dos seus. E será essa união de todos o que acabará destronando-o. A sua já é uma estátua cada vez mais desgastada por sua frieza psicopática e por sua incapacidade de entender e ainda menos de compartilhar a dor de uma nação.

Não busquem razões jurídicas ou políticas para apear Bolsonaro de um poder do qual se tornou indigno de exercer. Seu maior pecado é sua falta de humanidade, sua zombaria da tragédia e o fato de dar as costas à dor que sufoca as pessoas.

Continua após a publicidade

É possível que Bolsonaro caia antes de acabar seu mandato, esmagado pelos milhares de vítimas cujo grito não deveria deixá-lo dormir. Mas se por inércia ou falta de coragem daqueles que deveriam afastá-lo da presidência chegasse à reeleição, o silêncio ensurdecedor dos mortos o seguirá em cada passo da campanha e aos brasileiros será impossível voltar a assinalar seu nome nas urnas. Sim, serão os mortos mais que os vivos que colocarão uma barreira à sua insaciável fome de poder totalitário.

Quem conhece o presidente diz que tentou minimizar a guerra contra a epidemia diante do temor de que a tragédia pudesse criar problemas para sua reeleição porque a economia iria quebrar. Chegou a dizer que, no final das contas, quem mais morreria seriam os idosos e os já doentes, como se isso fosse irrelevante. Mais ainda, uma assessora de seu ministro da Economia chegou a afirmar que a morte de idosos seria um alívio para a economia, pois dessa maneira “se economizariam muitas aposentadorias”.

Bolsonaro confessou uma vez que sua missão como militar era “matar e não curar as pessoas”. Sem contar que essa afirmação é uma ofensa ao Exército, que não existe para matar, mas para salvar a nação de seus possíveis inimigos e também atuar para salvar vidas nas tragédias e calamidades naturais.

Bolsonaro não se conforma em ser mito, mas vai como um deus decidindo sobre a vida das pessoas. É difícil encontrar personagens na história com tal amplitude de negatividade, pois parece viver em um mundo de fantasmas de mortos como se os vivos o assustassem.

Como construir um país tão rico de vida quanto o Brasil, tão jovem e com tanto futuro governado por fantasmas de destruição e morte? Como apostar na reunificação pacífica do país sem ter que ouvir a todo o momento os lúgubres presságios da violência, da divisão e da falta de empatia com a dor alheia da boca de quem deveria, ao contrário, despertar sentimentos de vida e de renascimento do melhor que aninha no coração humano?

Bolsonaro sempre à caça de inimigos a abater os encontra em todos os lugares, na imprensa, no Congresso, no STF. Para que devem existir outros poderes fora de seus domínios? Não disse que a Constituição é ele e, portanto, sonha em poder mudá-la e reescrevê-la a seu gosto? Para que a cansativa viagem de diálogo e colaboração com as outras instituições que servem apenas como obstáculo? Não, Bolsonaro não é um fantasma, é um amontoado de instintos de destruição e morte. Seu sonho é armar pessoas, se possível até as crianças. O que é uma pessoa sem um fuzil para empunhar?

A morte sempre como pano de fundo. Seus instintos são o tânatos de Freud. A felicidade, o compartilhar a vida, o diálogo sereno com os que pensam diferente dele, a compaixão pelos que mais sofrem, que são os mais esquecidos, e o compartilhar a dor alheia não cabem em sua psicologia de destruição e em seus medos irracionais diante de inimigos inexistentes. Melhor deixá-lo sozinho se divertindo com seus brinquedos de morte, já que a vida parece lhe dar medo.

(Transcrito do El País)

Continua após a publicidade

Publicidade