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Pandemia global exige respostas globais (por Marcos Magalhães)

‘Vírus chinês’

Por Marcos Magalhães - 25 mar 2020, 11h00

O exemplo vem de cima. Há uma semana, um indiscreto fotógrafo do Washington Post flagrou mudança de última hora no discurso sobre a pandemia global que o presidente Donald Trump faria aos integrantes de uma força-tarefa norte-americana. Onde antes se leria ‘coronavírus’, a expressão ‘corona’ estava riscada a caneta. A palavra ‘chinês’ foi escrita a mão no lugar do termo cortado.

Trump falou, então, mais uma vez, do ‘vírus chinês’ que teria colocado o mundo de joelhos. O uso frequente dessa expressão parece ter sido a senha para muitos dos seguidores do presidente em todo o mundo. O caso mais conhecido no Brasil foi o do tweet do deputado Eduardo Bolsonaro que responsabilizou a China pela expansão global do coronavírus.

Agora começa a circular nas redes sociais brasileiras um vídeo que alerta para um suposto plano da China de dominar o mundo. Enquanto o presidente Xi Jinping fala durante um minuto e meio em uma biblioteca, tendo ao lado uma bandeira de seu país, uma música de tom heroico sobe ao fundo e legendas em português anunciam um grande desafio.

“Estamos prestes a iniciar uma nova era na China e no mundo”, teria dito Jinping segundo as legendas do vídeo, antes de alertar que seu país nunca mais vai ser humilhado e que suas Forças Armadas estão cada vez mais fortes. “A China é inevitável”, conclui, vitorioso.

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A imagem é real. Mas as legendas em português não têm nada a ver com as palavras reais de Xi Jinping. Trata-se, na verdade, de uma mensagem de Ano Novo, na qual o líder chinês fala de conquistas como a redução dos preços de medicamentos contra o câncer e a retirada da pobreza de dez milhões de habitantes do meio rural.

Como pouca gente entende chinês no Brasil, qualquer pessoa que receba o vídeo pelo WhatsApp pode se sentir tentada a acreditar que existe mesmo alguma coisa por trás dessa pandemia cujo primeiro caso ocorreu na distante cidade de Wuhan.

O vídeo foi provavelmente produzido por algum radical inspirado no discurso de extrema direita que procura responsabilizar a China pela rápida disseminação da pandemia por todo o mundo. Até aí, seu autor poderá no máximo ter obtido a simpatia de alguns incautos à sua tese.

Os tweets do deputado, naturalmente, tiveram efeito muito mais profundo. Motivaram ásperas notas diplomáticas da Embaixada da República Popular da China e do Itamaraty. E podem ser responsáveis por um prolongado resfriamento nas relações bilaterais, no momento em que a China começa a superar a crise e a oferecer ajuda a diversos outros países.

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Por sua vez, a troca de palavras no discurso de Trump indica que o presidente dos Estados Unidos cedeu à tentação de politizar o tema. Quando troca a expressão ‘corona vírus’ por ‘vírus chinês’, ele deixa de lado uma abordagem científica do problema para se dedicar a uma sutil acusação de incompetência ao governo da segunda potência mundial.

A linguagem adotada por Trump permite supor que ele pretende se esquivar de parte dos efeitos políticos da crise ao atribuir indiretamente a responsabilidade pela expansão da pandemia ao governo chinês.

Da mesma forma, o deputado Eduardo Bolsonaro foi acusado de haver criado uma cortina de fumaça ao traçar uma comparação entre o comportamento das atuais autoridades chinesas e o das autoridades soviéticas que tentaram conter a divulgação de informações sobre o vazamento da usina nuclear de Chernobyl, em 1986.

Ao criticar os erros cometidos, a seu ver, pelo governo chinês, Eduardo Bolsonaro estaria desviando atenção da opinião pública em relação à conduta do presidente Jair Bolsonaro no combate à pandemia – aprovada por 35% e rejeitada por 33% dos brasileiros, segundo o DataFolha. Mesmo que, no meio do caminho, tenha provocado uma inédita crise diplomática entre a China e o Brasil.

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Ao atribuir à China a culpa pela disseminação da pandemia, o deputado arrisca-se a ser desmentido pelos fatos. Segundo reportagem do jornal The New York Times publicada no domingo (22), as autoridades chinesas tomaram medidas para isolar Wuhan em 23 de janeiro, quando se registravam apenas 500 casos e 17 mortes.

“A ação rápida teve um importante efeito: com o vírus praticamente isolado em uma província, o resto da China foi capaz de salvar Wuhan”, escreveu o repórter Donald McNeil na reportagem do The New York Times.

O coronavírus já causou 15 mil mortes. E a expansão do vírus está ocorrendo de forma cada vez mais rápida, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Já foram registrados 300 mil casos em todo o mundo. Foram necessários 67 dias para os 100 mil primeiros casos, 11 dias para outros 100 mil e apenas quatro dias para os 100 mil casos mais recentes.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse nesta segunda-feira (23) que é possível “mudar a trajetória” da pandemia. Para isso, afirmou, é necessário um “comprometimento político global”.

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O mundo atravessou poucas situações de tão alto risco até hoje. Sem uma resposta global rápida e efetiva, a pandemia poderá colocar em risco centenas de milhares de vidas, além, é claro, de promover uma grande recessão global.

Este mesmo mundo, porém, acostumou-se a avaliar seus desafios segundo uma ótica basicamente nacional. Daí a tentação política de se politizar a pandemia, atribuindo seus efeitos a fatos que ocorreram longe de suas fronteiras.

Uma pandemia global exige respostas globais. Nada menos do que isso.

 

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Marcos Magalhães é jornalista; https://capitalpolitico.com/ 

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