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Os novos caminhos que levam ao velho guichê

A “nova política” ainda não nasceu, lamentamos informar.

“Estamos vivendo uma nova política. O MDB não reivindicou cargos, não tem pretensão de indicar ninguém no governo, mas tem a responsabilidade de debater uma agenda programática”, disse o líder do partido na Câmara, Baleia Rossi, ao sair da reunião de sua bancada com Jair Bolsonaro no CCBB. Parece piada, e tem tudo para ser.

Afinal, a temperatura e a pressão do Planalto não mudaram, muito menos os personagens. O MDB perdeu um “P”, mas ainda é aquele partido de Michel Temer, dileto amigo de Baleia Rossi, e tantos outros figurantes de inquéritos e denúncias que pipocam em todas as instâncias do Judiciário – sem contar outros que, como Eduardo Cunha e Geddel Vieira Lima, andam presos por delitos cometidos em atividades políticas.

Seria muito bom acreditar que, eleito um novo presidente que prometeu acabar com o toma-lá-dá-cá, o MDB tenha se regenerado e se transformado num partido programático. Mas não dá. E quem diz que acredita, pode apostar, está fingindo.

Os políticos são os mesmos, eleitos sob o nosso anacrônico sistema eleitoral e partidário, organizados em torno dos interesses que sempre tiveram – aqueles que, dificilmente, serão os seus, os meus ou os da maior parte dos brasileiros.

Para fazer justiça, esclareça-se que, quando falamos em MDB, estamos nos referindo também a PSDB, PSL, PRB, PSB, PR, PP, PRB, etc. E ainda aos que estão do outro lado do balcão da atual conjuntura, como PT, PDT, PSB, PCdoB e outros. Vitoriosos ou derrotados, governistas ou de oposição, a única coisa que não se pode dizer sobre eles é que estejam renovados.

O sistema político, partidário e eleitoral que trouxe e mantém esse pessoal em Brasília não mudou, ainda que tenha sido eleito um presidente da República com discurso contra a corrupção e a “velha” política. Bolsonaro, e os que o cercam, são tão fruto desse sistema quanto os demais. A “nova política” ainda não nasceu, lamentamos informar.

Só vai nascer no dia em que houver uma reforma no sistema eleitoral e partidário capaz de reconectar o eleitor a seu representante, permitindo eleger para o Congresso  quem recebeu de fato o maior número de votos, acabando com privilégios e abusos do poder econômico na eleição, redistribuindo recursos concentrados nas mãos de grandes partidos, fiscalizando e punindo golpes baixos nas redes sociais, etc. Sem reforma, qualquer conversa de nova política é enganação.

Assim como, já se percebe, ficará no terreno do mito a história do fim do toma-lá-dá-cá. O que vamos assistir, nesse filme, é apenas a mudança do caixa ostensivo na fachada do prédio para um guichê nos fundos da casa.

Os integrantes das bancadas temáticas – a moda da temporada – são os mesmíssimos deputados e senadores que integram também as bancadas partidárias, com os mesmos anseios e interesses cujo atendimento sempre norteou e sempre norteará suas decisões de apoio e voto.

O que pode ter mudado é o estilo de cobrança, mas eles sabem o caminho do guichê. Se não vão negociar por meio dos caciques partidários e suas nomeações ostensivas, encontrarão outros intermediários – ou vai virar tudo um grande varejo, numa janelinha mais discreta, mas igualmente aberta.

Helena Chagas é jornalista 

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