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Orgulho e prepotência (por José Paulo Cavalcanti Filho )

Lembro Dom Helder Câmara

Por José Paulo Cavalcanti Filho Atualizado em 30 jul 2020, 18h51 - Publicado em 19 jun 2020, 12h00

Numa conversa com Claude Mauriac, o general De Gaulle confessa que viveu sempre “de xeque em xeque”. Xeque do jogo de xadrez, claro. A frase bem poderia ser usada hoje, no Brasil. Trocando a palavra. De impeachment em impeachment. Talvez por isso, para tentar evitar um fim precoce, ande o governo cheio de militares. Problema é não terem sido treinados para as sutilezas das relações pessoais. Sobretudo um certo Capitão. Napoleão (citado por Ravignat) dizia que, na política, “um absurdo não é um obstáculo”. Como se as baionetas pudessem tudo. E não podem. Ou não deveriam poder. Para ilustrar, lembro Dom Helder Câmara.

Tudo ocorreu assim que chegou, do Rio, para ser Arcebispo Emérito de Olinda e Recife. Em 12.04.1964. E logo criou, por aqui, o Banco da Providência. Para ajudá-lo, convidou as assistentes sociais Ana Maria e Lilia. Só que não tinha dinheiro para contratá-las. Dom Lamartine, seu anjo da guarda, encontrando-se casualmente com Paulo Guerra, deixou de propósito escapar que Dom Helder veria com bons olhos a contratação delas pelo Governo. Para ficar à disposição do Arcebispo, claro. Paulo Guerra (PSD) foi vice de Arraes (PST). Com a Redentora, que prendeu Arraes, acabou governador. E desejava muito atender ao Dom. Para fazer pontes, num país fraturado. Mas sabia da dificuldade representada pelo General Justino Alves Bastos, comandante da 7a Região Militar. À época, todo-poderoso em Pernambuco. E que mandava até na própria sombra.

Dia seguinte, foi procurar Justino. “Dom Helder está pedindo que eu contrate 20 assistentes sociais, General. Mas comunista eu trato no pau. E não vou contratar ninguém”. O militar sorriu, satisfeito: “Muito bem, Governador”. Conversaram a manhã toda. Já indo embora, e como quem não quer nada, Paulo Guerra disse: “Sabe o que estou pensando?, General. Que esse diabo fez o pedido só prá gente negar e ele se dizer perseguido. Que o senhor acha de a gente contratar duas, em vez de 20?  Ele não iria poder falar em perseguição. Afinal, contratamos duas”. Justino, feliz: “Grande ideia, Governador, pode contratar”. Pouco depois, um magote de meganhas reclamou. E o General, nos altos do seu orgulho, “Fui eu que mandei”. Pois é. A prepotência dos generais nem sempre funciona. Política se faz longe de cavalos e baionetas. Tudo é mais sutil. Requer paciência. Conversa. Engenho e arte.

José Paulo Cavalcanti Filho.

jp@jpc.com.br    

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