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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O universo paralelo de governantes como Trump e Bolsonaro

Quem ganha e quem perde com isso

Por Ricardo Noblat - Atualizado em 13 set 2020, 08h58 - Publicado em 13 set 2020, 08h00

Trump mentiu quando disse aos americanos que o coronavírus não passava de uma ameaça desprezível. E mentiu novamente ao dizer ao jornalista Bob Woodward, editor associado do jornal The Washington Post, que mentira para não provocar pânico.

Pergunte às pessoas se elas preferem que seus líderes digam a verdade por mais aterrorizante que ela seja, ou que mintam. A resposta quase unânime será que digam a verdade. Ninguém gosta de ser enganado por melhor que seja a intenção.

De resto, quem concede aos líderes o direito de mentir? E por que eles mentem? Na maioria das vezes, ou na quase totalidade, mentem porque pensam em extrair vantagens políticas da arte de mentir. Não porque ao mentirem façam o bem aos governados.

Raras são as vezes que a mentira pode ser tolerada. Compreende-se que um líder não possa confirmar de antemão certas coisas. A eventual desvalorização da moeda, por exemplo. Uma operação secreta de órgãos de segurança para abortar atos de terrorismo.

Se tivessem perguntado ao presidente Harry S. Truman em 1945 se cientistas americanos e alemães trabalhavam no desenvolvimento de uma poderosa arma de destruição em massa, sua resposta seria um rotundo não. A bomba atômica era um segredo militar.

À época ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, Fernando Henrique esteve impedido de revelar detalhes do Plano Cruzado destinado a vencer a inflação. Grandes somas de dinheiro se movem à base da especulação, vá bem ou mal a economia.

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Ocorre que a mentira banalizou-se na era das redes sociais e da pós-verdade. Ela já não envergonha mais os mentirosos, não causa o menor constrangimento e é utilizada como arma indispensável para a conquista e a posterior manutenção do poder.

Há quatro anos quando nem mesmo ele imaginava que seria eleito, Trump inaugurou sua campanha com a mentira de que Barack Obama não nascera em território americano. Era uma mentira requentada, mas serviu para atrair para ele a atenção da mídia.

Trump fez da mentira uma das marcas indeléveis do seu governo. E, como se viu recente na convenção do Partido Republicano que o lançou candidato à reeleição, está pronto para esgrimi-la em sua defesa e no ataque a Joe Baden, candidato do Partido Democrata.

O conservador Baden, à direita de Obama, começou a ser apresentado por Trump como um líder senil e radical que, se for eleito, implantará o comunismo na América. Mentira grotesca? Mais do que isso. Baden é patriota de carteirinha. Mas, e daí?

O humano sempre foi capaz de acreditar em tudo – tanto mais agora que a algaravia das redes estimula a formação de bolhas e ele encontra abrigo confortável em uma. A internet – ou o uso que se faz dela – empoderou os ignorantes e lhes deu voz e valor.

Líderes como Trump e Bolsonaro são produtos do seu tempo. E contam com a ajuda de expressiva parcela da sociedade dita esclarecida que tira proveito de suas ações imaginando descartá-los quando achar conveniente.

Pergunta que vale 50 centavos: Quem perde com isso?

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