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O reposicionamento do Brasil (Por Marcos Magalhães)

Até aqui, o que se percebe é um país fora de lugar

Por Marcos Magalhães Atualizado em 7 abr 2021, 02h48 - Publicado em 7 abr 2021, 12h00

Depois do furacão Ernesto Araújo, qualquer brisa de sensatez poderia estimular expectativas de uma política externa menos motivada por travessuras ideológicas e mais ancorada no pragmatismo. A posse nesta terça-feira do novo ministro, Carlos Alberto França, permitiria imaginar uma mudança de rumo no Itamaraty. Será?

A resposta a esta pergunta está apenas parcialmente ligada ao novo ministro. De França sabe-se pouco. Formado em 1991 pelo Instituto Rio Branco, o diplomata é goiano e formou-se em Direito pela Universidade de Brasília. Trabalhou em missões nos Estados Unidos, no Paraguai e na Bolívia.

Foi chefe de cerimonial no Palácio do Planalto durante o governo de Dilma Rousseff, ocupou o mesmo cargo no Ministério das Relações Exteriores até 2019 e depois voltou a ser o chefe do cerimonial no Planalto após a posse de Jair Bolsonaro. O que permite prever que, pelo menos no estilo, deverá ser mais discreto que Araújo.

Não é pouca coisa quando se analisa o movimentado período em que o primeiro chanceler de Bolsonaro esteve no cargo. Araújo nunca escondeu suas preferências políticas. E sua opção preferencial por Donald Trump o levou a fazer declarações quase carinhosas sobre os manifestantes de extrema direita que invadiram o Capitólio após a eleição de Joe Biden.

França já deixará seu nome na história da diplomacia se apenas desativar algumas minas espalhadas pelo ex-ministro em diversas áreas do Itamaraty. Ou se conseguir retirar do freezer as relações do Brasil com alguns de seus mais próximos parceiros políticos e econômicos, como os Estados Unidos, a Argentina, a França e a Alemanha.

Fora de lugar

Até aqui, o que se percebe é um Brasil fora de lugar. Nos primeiros anos do governo Bolsonaro houve uma aliança preferencial explícita com Trump. Também houve aproximação com países de orientação ultraconservadora, como a Hungria e a Polônia. O Brasil passou a aliar-se a países como a Arábia Saudita em questões ligadas a direitos humanos em órgãos internacionais.

O Mercosul foi quase esquecido. E só recentemente começou a haver um degelo entre Bolsonaro e Alberto Fernández, o presidente da Argentina, principal sócio brasileiro na construção do projeto de integração regional.

Uma das mais claras mudanças de rumo foi na área de meio ambiente. Ao longo de quase três décadas o Brasil vinha construindo uma reputação de parceiro essencial nos debates sobre temas como biodiversidade e mudança climática.

O desprezo do novo governo pela questão ambiental não apenas isolou o país, como gerou uma crescente desconfiança, capaz de interromper negociações tão importantes como a do acordo comercial com a União Europeia.

Mais recentemente, o negacionismo do governo brasileiro em relação à pandemia da Covid 19 atrasou a compra de vacinas no mercado internacional e acabou fazendo do país o epicentro dessa tragédia sanitária. Aqui também decisões políticas contribuíram para o isolamento.

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O caminho adotado pelo Brasil em suas relações internacionais nos dois últimos anos acabou motivando fortes críticas dentro do próprio país. Foi o caso de carta publicada em maio de 2020 pelos ex-chanceleres Fernando Henrique Cardoso, Aloysio Nunes Ferreira, Celso Amorim, Celso Lafer, Francisco Rezek, José Serra e Rubens Ricupero, além do ex-ministro de Assuntos Estratégicos Hussein Kalout.

No documento, eles lembram que o Brasil, antes “líder incontornável no tema do desenvolvimento sustentável”, agora aprece como “ameaça a si mesmo e aos demais na destruição da Amazônia e no agravamento do aquecimento global”. Acusam o atual governo de assumir o papel de “coadjuvante subalterno do mais agressivo unilateralismo” e de apoiar “aventuras intervencionistas” na América Latina.

Mais recentemente, uma carta publicada por economistas e banqueiros nos principais jornais do país mirou a condução da política externa durante a pandemia. Os signatários lembram que o Brasil perdeu um “tempo precioso” na negociação de vacinas no ano passado e agora sofre as consequências dessa lentidão.

“Tendo em vista a escassez da oferta no mercado internacional, é fundamental usar a política externa – desidratada de ideologia ou alinhamentos automáticos – para apoiar a obtenção de vacinas, seja nos grandes polos produtores, seja nos países que têm ou terão excedentes em breve”, recomendam os economistas e banqueiros que assinaram o documento.

Oportunidade

Haverá desidratação de ideologia? A mudança no comando do Itamaraty poderia, em ocasiões menos atípicas, ser boa oportunidade para um reposicionamento do Brasil. O momento de um recomeço, da busca de um realinhamento no mundo que tanto mudou desde janeiro de 2019.

Mas os tempos são mesmo exigentes. Além de uma pandemia global, que faz do Brasil atualmente a sua maior vítima, existe a visão de mundo do presidente Jair Bolsonaro. Ele não dá importância à questão ambiental, briga com antigos parceiros por causa das queimadas na Amazônia, vê a América do Sul tomada por governos de esquerda e entra em atrito com líderes mundiais que poderiam ajudar o país a superar o desafio sanitário.

O que pode fazer nessa situação um novo ministro de Relações Exteriores? Por mais bem intencionado que seja, ele vai ter que seguir as orientações de Bolsonaro. As ideias do presidente vão mudar? Dificilmente.

A gestão do novo chanceler pode servir como ponte para um momento de mudança na condução do país, que só vai ocorrer mesmo após as eleições de 2022. Até lá, porém, será preciso que a sociedade acompanhe cada vez mais de perto a política externa brasileira.

Não é um assunto trivial, nem deveria ser encarado como tema apenas para especialistas. O Brasil terá um longo caminho para reconstruir a sua imagem no exterior. Dessa imagem dependem decisões importantes não apenas de outros governos e organismos internacionais, mas de organismos não governamentais e cidadãos, que são também turistas e consumidores.

O Brasil precisa de um reposicionamento. Não será agora, não será fácil. Mas será fundamental depois que a tempestade passar.

Marcos Magalhães  escreve no https://capitalpolitico.com/

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