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O recomeço de Bolsonaro

Se tornou possível uma recomposição moderada

Por Leonardo Barreto e Leandro Gabiati Atualizado em 30 jul 2020, 19h41 - Publicado em 1 jun 2019, 10h00

Por Leonardo Barreto e Leandro Gabiati

Há uma semana, traçamos quatro cenários para o futuro do governo de Jair Bolsonaro (link). Em comum, todos eles dependiam da maneira como o presidente trataria o Congresso Nacional dentro da narrativa da sua concepção de “nova política”.

Nas pontas, havia dois cenários extremos. No primeiro, o presidente promovia a restauração do presidencialismo de coalizão a partir dos seus antigos moldes, com a divisão do gabinete entre os partidos como ponto de partida para a formação de uma base de apoio parlamentar. No outro, o nível de agressividade dos discursos aumentaria, denúncias de corrupção voltariam a dominar a mídia e um clima de salve-se quem puder político sacrificaria mais uma vez a agenda econômica.

Os outros dois eram variações dos dois extremos, com chances maiores de se verem realizados. Entre eles, uma amenização do ambiente de poder, promovido por recuos simbólicos de Bolsonaro, mesmo que segundo seus termos.

Depois das manifestações de domingo, no entanto, é possível perceber que se tornou possível uma recomposição moderada, em um contexto menos desfavorável ao presidente. A força demonstrada nas ruas permitiu a Bolsonaro acenar para uma trégua, com ele ainda em condição de vantagem em relação aos outros atores, considerando a percepção de popularidade.

Se os protestos pró-governo tivessem sido um fracasso, a proposta de trégua soaria como rendição, um pedido de apoio para reabilitar um presidente derretido. Nesse sentido, não é exagero considerar que Bolsonaro deve muito às pessoas que foram às ruas em sua defesa, pois elas permitiram-lhe um recomeço.

Fortalecido, Bolsonaro lançou forte ofensiva midiática. Deu entrevistas à TV Record e à revista Veja (publicada nesta sexta, 31) e participou de um talk show no SBT. No caso da revista Veja, deve-se notar que foi a primeira entrevista exclusiva concedida pelo presidente a um veículo considerado do mainstream.

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No front político, conseguiu promover o encontro com chefes dos poderes para a assinatura simbólica de um pacto de resgate nacional. Criticado por uma suposta falta de efeitos práticos, o pacto entre poderes, se realmente for assinado, terá força política, especialmente no Judiciário, que será chamado a julgar a constitucionalidade da reforma da Previdência, depois de aprovada.

Não por acaso, as manifestações mais violentas contra a participação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, na reunião com outros chefes de poderes, vieram de associações de magistrados, promotores e procuradores. As representações corporativas percebem na anuência tácita do STF à reforma previdenciária uma fragilização das linhas de defesa argumentativas usadas junto aos congressistas.

Os parlamentares comentaram abertamente nesta semana que o clima político mudou, quando comparado com o da semana anterior. No entanto, o tom ainda é de cautela. Se Bolsonaro realmente decidiu fazer política, mesmo que ainda distante da fórmula do presidencialismo de coalizão, a ordem é esperar para ver.

De todo modo, foi importante para os deputados verem a pressão feita pelo governo para que o Senado Federal mantivesse o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) no Ministério da Economia. Seu retorno para a pasta da Justiça, que poderia ser feito pelos senadores, obrigaria a Câmara a voltar a deliberar sobre o tema, expondo novamente as bancadas que votaram contra a vontade do popular juiz Sérgio Moro.

O gesto do governo de manter o texto como saiu da Câmara dos Deputados foi recebido como um sinal de real interesse de descompressão do ambiente de poder. Nesse sentido, ganha força um dos cenários intermediários, segundo o qual Bolsonaro não retrocede na disposição de não acomodar partidos nos ministérios, mas ameniza o discurso, permitindo que o Congresso Nacional avance em uma agenda própria pela através da qual possa obter créditos.

Leonardo Barreto e Leandro Gabiati são analistas políticos

(https://capitalpolitico.info)

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