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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O que é bom para os Estados Unidos pode ser bom para o Brasil

Lição para os generais

Por Ricardo Noblat Atualizado em 30 jul 2020, 18h52 - Publicado em 12 jun 2020, 08h00

O Chefe do Estado Maior do Exército americano, general Mark Milley, vestiu a farda, pôs no peito as condecorações a que teve direito e pediu desculpas públicas por ter acompanhado há 11 dias o presidente Donald Trump na curta caminhada até a igreja de Saint John, a uma quadra da Casa Branca. Ali, Trump limitou-se a posar para fotos com uma bíblia na mão.

Quando o ministro da Defesa do Brasil (ou será ministro da Defesa do governo?), general Fernando Azevedo e Silva, pedirá desculpas públicas por ter sobrevoado de helicóptero ao lado do presidente Jair Bolsonaro a manifestação antidemocrática que ocorreu em Brasília há 12 dias? Lá embaixo, devotos de Bolsonaro portavam faixas pedindo uma nova intervenção militar.

O que é bom para os Estados Unidos nem sempre é para o Brasil, mas nesse caso seria. “Errei e aprendi com o meu erro”, disse Milley. “Eu não deveria estar lá. Minha presença criou a impressão de que os militares estão envolvidos em política doméstica”. E completou: “Precisamos honrar um princípio essencial da República: o de que as Forças Armadas não são políticas”.

A amigos, Milley explicou que acreditava que estava acompanhando Trump e sua comitiva para passar em revista as tropas da Guarda Nacional na Praça Lafayette, local onde houve protestos pela morte do segurança George Floyd. À imprensa, Azevedo e Silva afirmou que pegara carona com Bolsonaro para ir para casa, uma vez que mora perto do local da manifestação.

Duas semanas antes de exibir-se na companhia do ministro da Defesa, Bolsonaro comparecera a outro ato antidemocrático que teve lugar ao pé da rampa do Palácio do Planalto. A seu convite, estavam lá 9 ministros – entre eles, o general da ativa Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo. Do alto da rampa, Bolsonaro levantou o braço do general apresentando-o ao público.

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Ramos foi alvo de críticas de seus colegas militares em grupos de  WhatsApp. Cotado para substituir o general Edson Leal Pujol no comando do Exército, ele anda falando que se sente desconfortável por ter feito o que fez. Que já conversou com Bolsonaro sobre ir para a reserva, mas que por ora hesita. Gostaria de continuar como ministro para ajudar o país. Ora, tenha dó!

Não há maior engodo do que dizer que não há militares no governo, apenas pessoas com formação militar. Há pelo menos 3 generais da ativa como ministros – além de Azevedo e Silva e Ramos, Eduardo Pazuello, na Saúde. Pazuello só é interino porque seus pares pressionaram Bolsonaro a não efetivá-lo no cargo. Não querem ligar o Exército ao combate perdido contra o Covid-19.

Pazuello empregou cerca de 30 militares no Ministério da Saúde. O número de militares com cargos em diversos escalões do governo já ultrapassou a casa dos 3 mil. Tamanha ocupação pelos militares do aparelho do Estado não aconteceu sequer à época da ditadura de 64. Não vale a desculpa de que a grande maioria é da reserva. Militar da reserva pode voltar a servir se convocado for.

Trump e Bolsonaro insistem em proclamar que contam com o apoio dos militares. Mas quando Trump ameaçou usar as Forças Armadas para enfrentar manifestações de rua, foi censurado pelo secretário da Defesa e por cinco ex-secretários, além de cinco ex-chefes do estado maior das Forças Armadas, dois comandantes de operações de guerra e 86 outros militares de alta patente.

Bolsonaro já fez coisas piores. Defendeu a tortura. Disse que seria muito fácil implantar uma ditadura no país. E dentro de unidades militares, defendeu armar o povo para evitar que a esquerda tome o poder e implante sua ditadura. Quantos militares de alta patente o criticaram por isso? Quantos ex-chefes do estado maior das Forças Armadas? Reina o silêncio dos coniventes.

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