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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O novo normal na disputa das potências (por André Gustavo Stumpf)

O confronto de um vírus contra o outro

Por André Gustavo Stumpf Atualizado em 18 nov 2020, 19h55 - Publicado em 5 out 2020, 11h00

Dez meses depois de o novo coronavírus aparecer em Wuhan, na China, o mundo alcançou no domingo 27 de setembro a marca de um milhão de mortes. O Brasil surge no segundo lugar em número de óbitos, 145 mil, atrás dos Estados Unidos com mais de 210 mil. O vírus, afinal, não é uma gripezinha, nem um simples resfriado como foi percebido nos primeiros dias por governantes negacionistas em diversos países do mundo.

É a maior tragédia sanitária ocorrida no planeta nos últimos cem anos. Os sinais de alívio começaram a aparecer nos últimos dias na queda da média móvel que andou acima de mil mortes diárias e hoje frequenta a casa de 600/650 por cada 24 horas. Mas ainda não há vacina. Várias delas estão nos estágios finais de produção. Nenhuma está disponível.

A pandemia impôs mudanças profundas na vida das pessoas. A primeira foi a necessidade de ficar em casa, evitar contágio e manter distância até mesmo de familiares. Separou pai de filho, avô de neto e assim por diante. Um susto. Aumentou a ansiedade das pessoas. Mudou a vida das famílias. Os mortos têm nome. Morreu o filho da dona Maria, o neto de seu Afonso, o filho do chefe, o sobrinho do colega do trabalho. Todos têm uma morte para chorar.

Há especulação sobre o que será o novo normal. Uma situação é fácil de prever. As pessoas descobriram que podem viver bem permanecendo em casa. Os serviços de delivery viveram formidável expansão. Quem apostou neste novo tipo de comercio conseguiu respostas excepcionais. O professor de ginástica descobriu que podia dar aula particular pelo computador, as compras pela internet explodiram. O mundo passou a utilizar muito mais a rede computadores. Cursos on line se multiplicaram.

Isto significa que, daqui para frente, haverá demanda por mais e melhores serviços de internet. Terá que ser mais confiável, ter velocidade muito maior e confiabilidade até agora não conhecida. O que era sonho passou a ser necessidade premente. É para já.

Somente três empresas produzem equipamentos para a chamada 5G, a quinta geração. Nokia, finlandesa, Ericsson, sueca, e Huawei, chinesa. Esta empresa chinesa é perseguida pelos norte-americanos que nela enxergam uma série de males, até espionagem. Porem é a mais desenvolvida. O governo deverá escolher a rede 5G no início do próximo ano.

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As decisões resultantes da pandemia se tornaram urgentes. No campo social, a partir de janeiro do próximo ano boa parte da população economicamente ativa estará desamparada. O auxílio emergencial vai terminar em dezembro. E a economia não reagiu, até agora, como prometeu o otimista ministro Paulo Guedes. No lado oposto a ele, o populismo econômico, defendido por quem quer gastar além da capacidade atual do tesouro nacional, vai interferir no futuro do país. Decisão dificílimas serão necessárias.

É necessário enxergar o cenário com distanciamento. O vírus se propagou com rapidez desde Wuhan e se espalhou pelo mundo. Paralisou a Europa. Colocou o comércio em quarentena. Os negócios foram suspensos por retraimento natural dos agentes. A indústria parou. O setor de serviços estacionou. O desemprego explodiu. O mundo parou. A China conseguiu se recuperar em poucos meses. Mas os países europeus ainda não retomaram a normalidade.

Nos Estados Unidos, a empáfia de Donald Trump fez com que o presidente desafiasse os cientistas. Enfrentou de peito aberto o vírus. Agora, há pouco mais de trinta dias da eleição, ele baixou hospital junto com sua mulher. Os dois estão infectados. Além dele, outro negacionista, Boris Johnson, primeiro-ministro inglês, foi vencido pelo vírus. Jair Bolsonaro também foi atingido. Cumpriu a quarentena e voltou ao trabalho. Mas todos eles perceberam a extensão do desastre econômico. Estão assustados com o que 2021 vai trazer. Grande confusão político-econômica, porque não há dinheiro para retomar obras e, ao mesmo tempo, promover assistência social.

E a questão militar está em aberto. No início da pandemia dois porta-aviões norte-americanos, que estavam no mar da China, foram obrigados a retornar a base de Okinawa, Razão: muitos infectados a bordo. Doença paralisou as maravilhas do poder bélico norte-americanos. Nenhum governo divulgou o número de vítimas nas forças armadas por causa da covid19.

O vírus que ataca preto, branco, trabalhador ou presidente da República desmonta exércitos. A próxima guerra não vai utilizar tanques, soldados e armas sofisticadas. Vai ser o confronto de um vírus contra o outro. O vencedor poderá exterminar a humanidade a frio, sem grandes batalhas, depois de desmontar o comércio internacional e paralisar as forças armadas. Este deve ser o novo normal.

 

André Gustavo Stumpf escreve no Capital Político. Formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), onde lecionou Jornalismo por uma década. Foi repórter e chefe da sucursal de Brasília da Veja, nos anos setenta. Participou do grupo que criou a Isto É, da qual foi chefe da sucursal de Brasília. Trabalhou nos dois jornais de Brasília, foi diretor da TV Brasília e diretor de Jornalismo do Diário de Pernambuco, no Recife. Durante a Constituinte de 88, foi coordenador de política do Jornal do Brasil. Em 1984, em Washington, Estados Unidos, obteve o título de Master em Políticas Públicas (Master of International Public Policy) com especialização política na América Latina, da School of Advanced International Studies (SAIS). Atualmente escreve no Correio Braziliense. ⠀

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