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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O negacionismo (por Gaudêncio Torquato)

Existe um núcleo forte no governo que tenta puxar para os tempos de Galileu Galilei

Por Gaudêncio Torquato Atualizado em 18 nov 2020, 19h47 - Publicado em 25 out 2020, 10h00

A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.” A frase do velho Karl Marx virou refrão para ancorar textos, análises e comentários. Mas muitos não concordam com ela e preferem o pensamento de Heráclito de Éfeso de mais de 2.500 anos: “Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio”. Tudo se transforma de maneira constante e permanente. Na segunda tentativa, o homem já mudou e as águas serão outras.

O que pode se registrar é a ocorrência de um fato que conserva semelhanças com o passado. Exemplo claro: a revolta da vacina.

O caso ocorreu em meados de 1904, quando internados no hospital São Sebastião, no Rio, incitaram a população pobre a não tomar a vacina contra varíola, o que era obrigatório. O cientista Oswaldo Cruz lutou muito pelo projeto.

E o que estava por trás daquilo? Política. Arrumava-se um pretexto para a forçar a deposição do presidente Rodrigues Alves. Dito isto, pulemos para os dias de hoje.

A revolta contra a obrigatoriedade da vacina, patrocinada pelo presidente da República, é mais uma jogada política, com clara conotação: trata-se de um remédio chinês, uma “vacina comunista”. Esse argumento parece emergir do QAnon, uma maluquice difundida nos EUA, que embala o pacote anticomunista: pedofilia, tráfico de crianças e outras coisas estapafúrdias.

O que diz a lógica? Que vacina não tem ideologia e qualquer das 130 em teste pelo mundo pode ser aplicada, desde que eficaz e aprovada. Incrível que alguns políticos e governantes (até astronautas), vestindo-se de médicos, continuem a receitar hidroxicloroquina e vermífugos. A ciência já provou que essas drogas são ineficazes.

O fato é que o negacionismo reaparece sob o véu da ignorância num planeta que avança nos campos da ciência. Existe um núcleo forte no governo que tenta puxar para os tempos de Galileu Galilei, condenado à prisão por defender a tese de Copérnico de que a terra orbitava em torno do sol. Ele foi obrigado a negar sua pregação e a viver confinado em prisão domiciliar.

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Até que, em 1992, o papa João Paulo II revisou os enganos cometidos pelo tribunal eclesiástico contra Galileu – 350 anos após sua morte.

Os olhos dos negacionistas, como o presidente Jair, parecem tapados. Para eles, o isolamento social é besteira. Não enxergam uma segunda onda do vírus na Europa. Nos EUA, negacionistas espalham versões e morrem às pencas.

Trump e Bolsonaro, que louva o magnata, e muitos assessores, foram pegos pelo bicho. Mas se acham super-heróis, como parcela de seu eleitorado. Há como mudar a mente de um radical empedernido? Fazê-los acreditar que, se uma parcela da população não for vacinada, outra poderá ser contaminada? Como provar a eles que isso não é ideológico?

Governantes, governem para todos, sejam justos e magnânimos. Como explica Platão: “o homem justo é aquele cuja alma racional impõe à alma desejante (prazeres e leviandade) a virtude da temperança e à alma colérica, a virtude da coragem, que deve controlar a raiva.” Eleitores radicais, aceitem o jogo dos contrários, isso é democracia.

Tentem aliviar o ódio, a atitude de quem está sempre chamando para a briga. Levantem a bandeira branca da Paz.

 

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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