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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O ministério que faz falta

Memórias do blog

Por Ricardo Noblat - 11 jan 2018, 12h00
O cantor e compositor Chico Buarque Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Em parte, a falta de notícias relevantes que costuma marcar o país entre o final de cada ano e o carnaval do ano seguinte foi mitigada pelos massacres de presos no Amazonas e em Roraima, que produziram uma centena vítimas, muitas delas esquartejadas.

Nem por isso as férias e a redução do trabalho nos três poderes da República (Legislativo, Executivo e Judiciário) passarão sem que pelo menos brotasse uma ou mais “flores do recesso”. Ou seja: fatos que não passam de falsos fatos. E que logo serão esquecidos.

A “flor” do atual recesso brotou no rastro das discussões por ora acesas, mas que em breve esfriarão, em torno da crise do sistema penitenciário brasileiro. A crise é um fato real, concreto, para o qual não existe uma só solução, mas um conjunto complexo delas.

Como não parece haver consenso na sociedade sobre a melhor forma de enfrentá-la, políticos em busca de algum protagonismo ressuscitaram a velha e inócua ideia de propor a criação de mais um ministério, esse só para cuidar da segurança pública.

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Um grupo de deputados, hoje, se reunirá com o presidente Michel Temer para tratar do assunto. Alguns deles saíram, ontem, animados com o que ouviram a respeito do colega Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, substituto de Temer nas suas ausências.

O DEM de Maia sempre defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública – ou de qualquer outro nome que se lhe dê. Maia é candidato a se reeleger presidente da Câmara. Por coerência e à caça de votos, ele não poderia ter repelido a proposta.

Mas ela não tem a menor chance de vingar. Não vingou quando foi sugerida ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, que preferiu criar a Secretaria Nacional de Segurança Pública subordinada ao Ministério da Justiça. Não vingou nos governos Lula e Dilma.

Os presidentes não querem ligação direta com os problemas da segurança pública. Como a Constituição diz que ela compete aos governos estaduais, ajudados pelo federal, os presidentes se valem disso para manter distância prudente deles. Bastam os demais problemas que os acossam.

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Os ministros da Justiça nunca quiseram renunciar a um naco do seu poder. O que seria deles se a segurança pública virasse um ministério específico? De resto, como se falar em hora de crise e de corte radical de gastos na invenção de mais um cabide de empregos?

O compositor Chico Buarque sugeriu a Lula, ainda no seu primeiro governo, a criação de um ministério barato, baratinho, a ser ocupado por uma única pessoa, seu titular, e no máximo uma secretária. Vá lá, também um motorista para o carro oficial.

Seria o Ministério do Vai dar Merda. Caberia ao ministro do Vai Dar Merda opinar sobre questões de qualquer natureza capazes de provocar sérios embaraços para o governo. Noutras palavras: capazes de dar merda. Do ministro se exigiria, apenas, inteligência e bom senso.

Lula desprezou a sugestão de Chico, reiterada a Dilma que também a desprezou. Temer nada teria a perder se a acatasse, haja vista o que já houve de merda desnecessária em tão poucos meses de governo. Até poderia ficar bem com Chico e com parte dos que o acusam de golpista.

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