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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O mais transparente presidente do Brasil

Bravo, capitão!

Por Ricardo Noblat - 22 jul 2019, 08h01

O distinto povo, aqui e em toda parte, tem o direito de saber sobre todas as coisas que possam afetar o seu destino. Por quê? Ora, faça o favor! Porque numa democracia é assim. Porque o certo é que seja assim, e ponto final.

Os donos do poder, aqui e em toda parte, só querem que o povo saiba o que não os comprometa. Alguns até defendem a liberdade de imprensa de maneira enérgica, e a ela se opõem no escurinho dos gabinetes. São os mais perigosos.

Bolsonaro é sócio temporário do clube dos donos do poder. Deputado federal durante quase 30 anos, comportou-se no Congresso como um sindicalista militar mal sucedido. Eleito presidente por acidente, é tolerado no clube com restrições.

Mas embora esse não seja o seu propósito, Bolsonaro colabora de forma decisiva para que o distinto povo conheça um pouco mais as entranhas do exercício do poder. É o que de melhor tem feito nos últimos seis trepidantes e inesquecíveis meses.

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O ex-capitão do Exército, dali removido porque um dia planejou detonar bombas em quartéis, governa em tempo real e diz o que lhe passa pela cabeça em tempo real, da maneira mais escancarada jamais vista por estas bandas e alhures. Que bom!

Sob esse aspecto, mas não só, lembra um pouco Lula. Uma vez, irritado com a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, Lula disse que a morte de certos espécimes de peixes não deveria ser motivo para que se impedisse a construção de uma represa.

Na última sexta-feira, e ontem outra vez, Bolsonaro disse que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais contraria nossos interesses quando divulga dados sobre desmatamento. Afinal, a questão virou “uma psicose” para outros países, segundo ele.

Onde já se viu um presidente, ainda mais de um país que abriga a floresta conhecida como o pulmão da Terra, dizer coisa parecida para que todos os seus governados – e mais além – ouçam e meditem sobre suas palavras? Deveria ser elogiado!

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Ele poderia agir às escondidas para que não se soubesse que o desmatamento no mês passado foi muito superior ao registrado em junho de 2018. E que no mês em curso cresce a galope. Mas, não. Alardeia sua intenção nefasta. Alvíssaras!

Acusado de falta de patriotismo por um general que é membro da Comissão de Anistia do governo, Bolsonaro, que detesta ouvir falar de anistia e que dos militares só espera obediência, chamou o general de aliado do Partido Comunista do Brasil.

Comunista, portanto, é todo aquele que ousa censurar o capitão, não importa se civil ou militar. Os insatisfeitos deveriam proceder como grupos de índios ameaçados de extinção: embrenhem-se nas matas. Se não, silenciem para sobreviver.

Foi um microfone, aberto antes do tempo, o meio pelo qual se soube que Bolsonaro orientou o chefe de sua Casa Civil a boicotar o governador do Maranhão, escolhido por ele como seu principal adversário político pelo menos no momento.

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Mas que importa que tenha sido por um microfone? Sem poder negar o que havia dito, Bolsonaro voltou a atacar o governador. No seu novo ataque, incluiu outro governador, o da Paraíba. Para não ficar tão mal com os nordestinos, irá à Bahia amanhã.

Para não ficar mal com os garimpeiros que o apoiaram, enviará ao Congresso um projeto de legalização dos atuais garimpos. São mais de 2 mil os garimpos ilegais só nas cercanias de Itaituba, no sul do Pará. O governo não tem como fiscalizá-los.

É ou não o presidente mais transparente que o Brasil já teve? E o mais empenhado em resgatar suas promessas de campanha por mais absurdas que tenham sido? Não desceu do palanque e não pretende descer. É candidato à reeleição desde já.

Ao cabo, Bolsonaro oferece sucessivas oportunidades para que o conheçam bem os que votaram nele por engano, ou porque desejavam acima de tudo derrotar o PT. Se repetirem o voto daqui a quatro anos é porque gostaram do que viram.

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