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O jornalismo nos tempos de Carlos Castelo Branco, o Castelinho

“Ele foi o Congresso quando o Congresso não era”

Por Ricardo Noblat - Atualizado em 29 Jun 2020, 05h07 - Publicado em 29 Jun 2020, 10h00

Três ou quatro histórias sobre Carlos Castello Branco, o jornalista político mais importante de sua geração, titular da Coluna do Castello publicada durante 30 anos e meio no Jornal do Brasil, e que se vivo fosse teria completado 100 anos na semana passada.

* Castellinho dizia que em Brasília, cidade do poder, você deve cumprimentar as pessoas, mas não esperar em troca agradecimentos ou gentilezas. Se cumprimentar o porteiro, o máximo que ocorrerá é ele achar que você não tem poder nenhum, não manda em ninguém, tanto que fala com ele. Moral da história: em Brasília, quem tem poder não fala com porteiro. Verdade até hoje.

* Castellinho foi preso várias vezes após o anúncio, em dezembro de 1968, do Ato Institucional nº 5, o que levou a ditadura de 64 a se assumir como tal. Pedia de presente a seus advogados caixas de Bombom Cereja ao Licor — Kopenhagen. Na cela, quebrava os bombons ao meio e bebia o licor, dispensando o chocolate. Não sobrevivia sem sua dose diária de álcool “para vencer a timidez”.

* Em 1978, Castellinho foi a Salvador para uma palestra. Um jovem repórter o entrevistou no Bahia Othon Palace. Ao voltar ao jornal, o repórter se deu conta de que se esquecera de perguntar a hora da palestra. Telefonou para Castellinho perguntando. E ouviu a lição: “Meu filho, aprenda: na maioria das vezes, o repórter só tem uma chance. Boa noite”. E desligou sem informar a hora da palestra.

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* Castellinho foi um dos raros jornalistas que a ditadura de 64 não rotulou como esquerdista. Dentro dos vários governos militares, grupos liberais sempre trabalharam para que a Coluna do Castello não fosse censurada. E não foi. Ao saudá-lo em 1982, na sessão da posse de Castelinho na Academia Brasileira de Letras, José Sarney, amigo dele, disse uma bela verdade: “Ele foi o Congresso quando o Congresso não era”.

Castellinho jamais se limitou a encadear episódios inéditos ou conhecidos apenas para deleite dos seus leitores. Os episódios sempre foram citados para ilustrar contextos que ele explorava a fundo. Daí porque se você ler as colunas de Castellinho uma atrás da outra, ficará com a impressão de que leu um pedaço da História do Brasil. E leu. E o objetivo do colunista foi alcançado.

A grande frustração de Castellinho foi esta: ele não queria ser jornalista, mas escritor. Como escritores foram os mineiros seus amigos Otto Lara Rezende e Fernando Sabino, entre outros. Achava o jornalismo “uma maneira de expressão secundária, uma atividade sem maior importância”. Dizia mais: “O jornalismo, de uma maneira geral, é uma atividade inferior”. Tentou a literatura. Publicou dois livros. Não fez sucesso. Desistiu.

Leitor voraz dos clássicos, um liberal por formação ligado à extinta União Democrática Nacional (UDN), ele atravessou como jornalista duas ditaduras. E com a primeira, de Getúlio Vargas, aprendeu os truques que o levaram a sobreviver à ditadura de 64 como seu cronista mais completo. Hoje, quando as redes sociais cobram um jornalismo combativo, Castellinho dificilmente se daria bem. Não era a dele.

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Criticava políticos e governos com elegância. Passava longe da crítica frontal, muito menos grosseira. Desprezava adjetivos. Apresentava os fatos, dissecava as conjunturas, tirava conclusões, tentava antecipar o futuro, mas disfarçava suas opiniões. Ou evitava oferecê-las. “Nunca ofendi ninguém”, gabava-se. Nunca traiu suas fontes de informação. Pelo contrário: poupava-as. Era dono de uma memória prodigiosa. Puxou ao pai.

Políticos de todas as cores ideológicas o procuravam para contar o que sabiam. A partir de certo momento, já não precisava procurar ninguém. Deixou de frequentar o Congresso quando ele, acuado pela ditadura de 64, passou a existir basicamente em sua coluna. Por contar o que lhe contavam e analisar com argúcia o que via, incomodou o regime dos generais que se sucederam no poder entre 1964 e 1985. Nem por isso eles lhe cassaram a coluna.

Pelo contrário. Mais de uma vez, Castellinho esteve ameaçado de perder a coluna devido ao compromisso de apoiar o regime assumido por Nascimento Brito, dono do “Jornal do Brasil”. Curiosamente, foi salvo uma vez por Garrastazu Médici, o presidente da fase mais cruel da ditadura, a que torturava e matava presos políticos. Castellinho era amigo de Roberto Médici, filho do ditador, com quem almoçava frequentemente.

A pedido de Roberto, seu pai interveio e mandou soltar um dos filhos de Castellinho, preso com um cigarro de maconha. De novo a pedido de Roberto, Médici levou Castellinho em sua comitiva para uma visita aos Estados Unidos. Isso atenuou a pressão de Nascimento Brito sobre o mais lido colunista do seu jornal. “Todo Aquele Imenso Mar de Liberdade — A Dura Vida do Jornalista Carlos Castello Branco”, livro escrito por Carlos Marchi, é a melhor biografia de Castellinho.

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