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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O grande espaço do centro

A política, como água, caminha sinuosa entre as pedras

Por GAUDÊNCIO TORQUATO Atualizado em 30 jul 2020, 19h26 - Publicado em 15 set 2019, 10h00

As tendências parecem fortes: a polarização entre os extremos não será atenuada. Ao contrário, deve se expandir em virtude do alto interesse do bolsonarismo em manter a chama acesa de seus simpatizantes. No contraponto, a oposição, agora dividida, tentará se unir numa grande frente de combate à escalada direitista.

A incógnita gira em torno da liderança capaz de organizar essa articulação. Há quem aposte em Luiz Inácio, hoje preso, mas caminhando para eventual liberação, embora a prisão domiciliar seja rejeitada pelo petista.

Lula diz que só aceita a liberdade se vier completa, sem adereços, caso da tornozeleira eletrônica. E há dúvidas se, solto, continuaria a usufruir dos direitos políticos. A interpretação é a de que ele, mesmo libertado, só poderia ser candidato aos 89 anos. Poderia legalmente liderar a oposição?

Enquanto seus advogados lutam nos tribunais, sinais no horizonte apontam para um jogo de interesses. Bolsonaro gostaria de ver Lula como alvo preferencial – “demônio” capaz de vestir o país de vermelho –, enquanto o ex-metalúrgico gostaria de mirar no capitão que defende a ditadura, elogia torturadores e ameaça regredir o país aos idos de chumbo.

Mas a política, como água, caminha sinuosa entre as pedras. Não basta a vontade dos comandantes. Depende de fatores, como satisfação social, segurança, sensação de dias melhores. Que fique claro: a política navega ao sabor das circunstâncias.

Analisemos essa última hipótese, projetando a continuidade do discurso polarizado. É possível aduzir que amplos segmentos sociais – particularmente do meio da pirâmide – não suportarão conviver por muito tempo com a lengalenga raivosa e tiroteios recíprocos.

Cedo ou tarde a verborragia vai saturar, afastando milhões de brasileiros dos radicais que se esgoelam. Conhecendo a índole nacional, enxerga-se o início de um esgotamento do discurso raivoso.

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A partir dessa óbvia constatação, conclui-se que não haverá clima para guerras ou ressurreição da ditadura. Pessoas do meio da pirâmide, como profissionais liberais, vão atravessar a tormenta para atingir as águas mais calmas no meio do oceano.

A imagem é a de um mar se abrindo para núcleos racionais, ordeiros, sob a bandeira do crescimento e dispostos a escolher seus dirigentes entre cultores da ordem e do aperfeiçoamento institucional.

Dito isto, emerge nos horizontes sociais o florescimento de um gigantesco corredor central, em que partidos, ONGs, associações de todo tipo e suas lideranças se darão as mãos por um projeto de união nacional.

Chega-se facilmente à hipótese de que a salvação do país sairá dos protagonistas do meio, não dos extremos. Virão com novas ideias, propostas e visões. Radicalismos serão eliminados ou muito reduzidos, previsíveis numa democracia.

Em suma, sairemos do apartheid social para uma convivência pacífica. Utopia? É possível. Mas nossa ethos não se acostuma com tanta beligerância.

2022 está longe e nuvens pesadas sobrevoarão algumas Nações. A vitória de Trump nos EUA em 2020 não é mais uma certeza. E se a recessão chegar lá, sentiremos aqui os reflexos. Demos tempo ao tempo.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político 

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