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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

O comissário (por José Paulo Cavalcanti Filho)

“Só há heróis de renúncia e sofrimento”

Por José Paulo Cavalcanti Filho Atualizado em 18 nov 2020, 20h01 - Publicado em 28 ago 2020, 14h01

Em 5/6/1989, na Praça da Paz Celestial (Beijing), um pacifista se postou em frente a tanque chinês Type 59. Pouco se conhece dele, além das fotos que correram mundo. Seria, especula-se, Wang Weilin. Um estudante de 19 anos. O “Rebelde Desconhecido”, segundo a Revista Time, por ela incluído na lista das “100 pessoas mais influentes do século”. Agora, morando no interior da China. Ou em Taiwan. Ou, talvez, nem vivo esteja mais. Ocorre que ele nunca seria capaz de parar um tanque. Isso, poderia fazer apenas quem o dirigia. O que não se diz é que esse militar, de quem sequer se conhece o nome (o governo chinês, apesar de instado, jamais revelou), desobedeceu as ordens de avançar sobre o rapaz que protestava. Preferiu seguir sua consciência. Evitou uma morte. E, no dia seguinte, acabou fuzilado. Como dizia Albert Schweitzer (De Minha Vida), “só há heróis de renúncia e sofrimento”.

O fato é lembrado em Riccardino – derradeiro livro de Andrea Camilleri. com o comissário Salvo Montalbano. E seus exóticos assistentes – Catarella, Fazio, Mimi Augello. Em Vigata (no mundo real Porto Empedocle, cidade bem no sul da Itália). Maior sucesso editorial do país, 20 milhões de exemplares vendidos e traduzido em 30 idiomas. O livro, de 2005, foi reescrito pelo autor, já cego, em 2016. Com recomendações, ao editor, de ser publicado só após sua morte. O que acabou acontecendo apenas em 16/7 último. Destaque, no Brasil, para a magnífica tradução do Ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, do STJ. No gênero, sem dúvida, hoje o melhor tradutor do país.

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Curioso, no livro, é uma sucessão de passagens que, referindo-se à Itália daquele tempo, lembram nosso Brasil de hoje. A arte, de vez em quando, parece imitar a vida. Cito algumas: “O Bispo Partanna é um vivaldino. Eu não tenho esse defeito. Ou essa virtude, dados os tempos que correm”. “Hoje, aos olhos de opinião pública, infelizmente, dizer que uma pessoa é investigada significa que já é condenada”. “O sujeito, em vez de estar na cadeia, estava é no governo”.  “O mundo político se afogou numa onda anômala de prisões, de condenações por propinas, subornos, corrupções, concessões e mamatas”. “Escapou fedendo de 3 processos, sempre por prescrição superveniente”. Para terminar, um amigo pergunta ao comissário, em caso de corrupção, “Você está certo de que poderia levar a término uma investigação assim, hoje em dia?” Considerando nosso atual Supremo, de Toffoli (Deus nos proteja), alguém responderia sim?

 

José Paulo Cavalcanti Filho.
jp@jpc.com.br

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