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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Nossas vidas do amanhã (por Gaudêncio Torquato)

A reforma nos costumes

Por Gaudêncio Torquato - Atualizado em 13 set 2020, 04h13 - Publicado em 13 set 2020, 10h00

Um exercício de paciência. Missão de persistência. Uma vida de mais renúncias. Essas três frases irão circunscrever nossas vidas no amanhã. O biólogo e pesquisador Átila Iamarino dá a dica: “não tem volta mágica para 2019 sem vírus. É uma adaptação pragmática para 2021 com ele.” Portanto, devemos começar já as mudanças para os dias futuros. Não se espere pela volta aos dias de ontem, com velhos padrões de comportamento, atitudes e gostos.

A reforma nos costumes é uma das mais árduas. Afinal, nossa tradição carrega o dna de todo um processo civilizatório. Mas a vida segue seu curso na esteira das descobertas e inovações resultantes das pesquisas científicas. Qualquer iniciativa para salvaguardar a vida é sempre bem-vinda.

Como lembram os cientistas, o nosso foco será sempre o dos impulsos inatos aos seres vivos. Pavlov se vale do exemplo da ameba para explicar os reflexos humanos. A ameba foge do perigo, absorve alimentos, forma quistos dentro dos quais se multiplica. As pessoas, como as amebas, procuram evitar o perigo e preservar sua espécie. Se um vírus, um Covid qualquer, aparece de repente ameaçando o fluxo vital, o ser vivo reage, matando-o ou dele se afastando.

A natureza procura conservar a vida com dois grandes princípios: soma e gérmen. O primeiro, o indivíduo, conduz o segundo, a espécie; o primeiro é mortal, descontínuo, e o segundo é imortal, contínuo. Para preservar o indivíduo, antes que tenha cumprido a tarefa de transmitir o gérmen da espécie, a natureza o dotou de dois mecanismos especiais; e da mesma forma, para a preservação da espécie, proporcionou dois mecanismos. Os primeiros são os impulsos combativo e nutritivo; os segundos, sexual e paternal. Desse modo adotamos o pragmatismo para prolongar nossa preservação. A adaptação à realidade é condição sine qua non.

Que mudanças e novos costumes adotar, o que será mais impactado, o individual ou o coletivo? Arrisco a inferir que as adaptações assumirão proporção circular, sistêmica, abrangente, na medida em que a cadeia da saúde de um povo abriga mudanças nos padrões e normas governamentais, atitudes pessoais e comportamentos coletivos. Entidades e pessoas físicas deverão operar políticas de saúde, maiores cuidados sanitários, intensa prevenção, uma visão interdisciplinar para o Todo e não apenas as partes.

Uma eficaz revolução de costumes depende da chave da porta do futuro: a educação. Por isso, o sistema educacional deverá focar políticas de prevenção e mudança de hábitos nas áreas dos divertimentos, conservação ambiental, mobilidade urbana, segurança pública, manifestações coletivas, como eventos de massa. Pode-se prever críticas aos governantes por fazer censura, opressão à liberdade de manifestação etc. Mas não há reforma sem ponto e contraponto.

Para a nova ordem sanitária mundial será necessária a chegada ao poder de um núcleo com novas visões, olhar de estadista, empreendedorismo e coragem. É o único meio de implantar normas para a sobrevivência da espécie, com vida saudável, políticas preservacionistas e melhor distribuição de renda. A continuar essa disparidade de classes, os grupos mais poderosos haverão de dar o tom. E então a orquestra mundial continuará desafinada.

 

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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