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No palanque da ideologia

Bolsonaro continua em tom de campanha eleitoral, sem se dar conta de que há um país a governar

Editorial de O Estado de S. Paulo (10/2/2019)

Os discursos de posse do presidente Jair Bolsonaro, no Congresso e no parlatório do Palácio do Planalto, surpreenderam ao revelar que o novo chefe do Executivo ainda não havia descido do palanque. Com mais de um mês no cargo, Bolsonaro continua em tom de campanha eleitoral, sem se dar conta de que há um país a governar – o que exige mais do que bravatas ideológicas.

Lida no início da 56.ª Legislatura, a Mensagem de Jair Bolsonaro ao Congresso Nacional é, em sua maior parte, um amontoado de frases desconexas, sem fundamento nos fatos, voltado a atacar opositores e a imaginar inimigos a conspirar contra o País e o governo.

O presidente afirmou que trazia “uma mensagem de esperança”. Mas o discurso genérico, fincado numa ideologia estridente, foi incapaz de dar fundamento a qualquer otimismo.

Ao mesmo tempo que prometeu “transformar o País a partir de estudos sólidos e fundamentados que estão sendo elaborados pelos ministros em suas respectivas áreas”, Jair Bolsonaro disse que “a criminalidade bateu recordes, fruto do enfraquecimento das forças de segurança e de leis demasiadamente permissivas. Isso acabou! O Governo brasileiro declara guerra ao crime organizado. Guerra moral, guerra jurídica, guerra de combate”.

Não corresponde aos fatos dizer que a criminalidade vem batendo recordes. Em muitos Estados, conseguiu-se diminuir os índices de violência e os números de crimes praticados. Também é pouco preciso dizer que as leis penais são permissivas e que elas são causa dessa criminalidade recorde. Se o governo Bolsonaro pretende oferecer à população um novo patamar de segurança pública, urge abandonar diagnósticos genéricos e pouco realistas – mais afeitos à retórica do palanque eleitoral – e traçar um plano de governo, que, de forma serena e corajosa, apresente prioridades, meios e metas.

O governo tem um enorme desafio, por exemplo, nas relações internacionais. É preciso ampliar e fortalecer os acordos comerciais, abrir novos mercados aos produtos brasileiros e integrar o País nas cadeias globais de valor. No entanto, no discurso ao Congresso, o presidente Jair Bolsonaro limitou-se a dizer que, “nas relações internacionais, o Brasil deu as costas para o mundo livre e desenvolvido”, o que evidentemente não corresponde aos fatos, principalmente se considerados os últimos dois anos e meio. Ao falar assim, o presidente da República mostra que está desinformado sobre o Itamaraty e o seu trabalho.

Em vez de apresentar ao Congresso as prioridades que o novo governo enxerga pela frente, o presidente Jair Bolsonaro disse que “o Brasil resistiu a décadas de uma operação cultural e política destinada a destruir a essência mais singela e solidária de nosso povo, representada nos valores da civilização judaico-cristã”. Ora, o País não está numa cruzada e, muito menos, envolvido numa guerra civilizacional.

Um dos problemas sérios que o governo terá de enfrentar é o desemprego. Muito se fez no governo Temer para aumentar a ocupação, mas há ainda um longo caminho a percorrer. A esse respeito, o presidente disse: “Treze milhões de desempregados! Isso foi resultado direto do maior esquema de corrupção do planeta, criado para custear um projeto de poder local e continental”. É difícil vislumbrar um horizonte promissor diante dessa confusão de ideias.

Pelo que se vê, para o presidente Bolsonaro, não há muita diferença entre escrever no Twitter e apresentar ao Congresso a mensagem anual do Poder Executivo. Por sinal, a posse presidencial não mudou os hábitos de Jair Bolsonaro na rede social. No primeiro mês de governo, mais de um terço dos 200 tweets publicados pelo presidente é de ataques a adversários e à imprensa.

O tom de campanha eleitoral pode entreter, por algum tempo, parte de seus seguidores mais radicais, mas o exercício da Presidência da República vai além. A mensagem lida no início dos trabalhos legislativos não apresentou uma visão de país – apenas corroborou a imagem de um presidente que ainda não sabe a que veio.

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