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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Netices (por Tânia Fusco)

A vó do Tomaz morreu

Por Tânia Fusco Atualizado em 30 jul 2020, 18h47 - Publicado em 28 jul 2020, 13h00

O neto Caio liga e diz: Má notícia, vovó. A vó do Tomaz morreu.

– Nossa. Morreu de quê?

– Morreu dormindo.

– Jura? E era uma avó legal?

– Muito legal. Maravilhosa. Quase igual a você.  O “quase” ainda me mantém na categoria de a melhor vovó (viva) do mundo. Ufa! Segue o papo virtual.

– To ligando pra avisar, quando você perceber que vai morrer, não durma. Porque, se dormir, morre. Não acorda mais.

Como não dar uma gargalhada?

Como não prometer, jurar com dedo cruzado que, se perceber que vai morrer, não dorme de jeito nenhum.  Mais calmo, ele, o Caio, arremata.

– To avisando. Muito cuidado com a morte. Esse corona vírus também é muito mortal…

Maria do alto dos seus seis anos indaga:

– O Rubi morreu de morte natural ou assassinado?

Não morreu de morte natural. Mas levamos o assunto ao sobrenatural – para onde terá ido a “alminha” do Rubi?

– Claro que cachorro tem alma. É um ser vivo, argumenta com pai que duvidava da existência da alminha do Rubi.

E decidimos escrever uma história sobre a alminha do Rubi.

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Maria marcou que não sabe desenhar capa de livros. Combinamos: vale tentar. E fomos para a escolha do título. Maria ficou dividida entre duas sugestões – das dela, naturalmente. Um cachorro muito bravo e sua alminha danada.  Ou: A alma boazinha de um cachorrinho danado.

Na distância regular que a pandemia permite, vamos trabalhar o tema.

Rubi era o apelido de Rubirosa. Como o playboy* mais famoso da República Dominicana, era um vira-lata baixinho, mas elegante e atrevido.  Viveu 11 anos entre nós.  Rabugento, não gostava de crianças, nem de homens. Com seu latidão, assustava carteiros em geral. Tinha imenso prazer nisso.  Dava carreirão nos gatos da casa. Mesmo preso, rosnava feio para as crianças. Ainda assim era “gente da família”, como define Caio.

Maria, desenhista de traços a lá Picasso, já começou a pensar nas ilustrações para a história. Tem uma certeza: os desenhos não poderão ser iguais aos de todo mundo.

Esse negócio de querer fazer tudo igual, conta, faz com que fique irritada com a melhor amiga, a Lelê. “Cada um faz do seu jeito. Eu explico pra Lelê, nem as pedras da rua conseguem ser iguais. Por que duas amigas têm que ser iguais em tudo nas brincadeiras?”

Já sabemos que a primeira leitora da história sobre o Rubi e sua alminha será a prima Liz. Ela que, lá de são Paulo, em cada live, sempre atropelando as palavras, promete: Quando acabar o corona vírus, vou no avião, depois no uber, pra Brasília. Eba!

Os objetivos principais da viagem são: Brincar com a prima Maria e subir a escada da casa da vovó. Detalha: Vou conhecer e brincar também com o Joaquim Pedro. E pede garantia: Ele não vai ser bravo como o Rubi, não? (Joaquim Pedro, claro, é o novo cachorrinho da vovó).

Liz faz ressalva: Tenho que cuidar do primo João, porque ele ainda é bebê.  E posso brincar com “o outro” João.

O outro João vem a ser um dos gatos da – sempre mágica – casa da vovó. O João primo exige cuidados porque é “muito mais pequeno” do que a Liz. Ela tem três anos e meio, ele um. Distância abissal.

Enfim, foi dia das avós. Nós, esses seres encantados e empenhados em ser exatamente o que qualquer neta/o, em qualquer momento, ordena que sejamos. Princesa, bruxa malvada, Elza, Anaa, Olaf, Moana, Patrulha Canina…  Vez por outra, baladeira, também goleiro, atacante, cantor sertanejo, MC alguma coisa…

Na vibe do momento, podemos ser inclusive um corona vírus.  “Mas dos bonzinhos”, concede Maria.

Moleza. Ainda que de longe, não fosse o planeta netos e suas netices, quem de nós, com nossas comorbidades, no país do bozo e seus minions, segurava a onda da espada do covid 19 mirando nossas cabeças a cada esquina – da casa, do quarto, da janela, do mundo?

*No século passado, lá pelos anos 50/60, havia uma categoria de homens denominada playboy internacional. Bons vivants, ricos ou vivendo às custas de alguma/algum rico, circulavam em espaço chamado “jet set”,  onde só cabia os de muita grana e bicões expertos. Frequentavam, óbvio, lugares exclusivíssimos . Seriam, digamos, os muito Vips de hoje.

 

Tânia Fusco é jornalista 

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