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Não foram tragédias

No Brasil, a tragédia é uma imperdoável crônica de mortes anunciadas

Por Gustavo Krause - Atualizado em 17 fev 2019, 16h21 - Publicado em 17 fev 2019, 12h00

A boate Kiss, o Museu Nacional, Mariana, Brumadinho, Niemeyer e os garotos da base do Flamengo não foram tragédias.

As tragédias, ensina a tradição grega, tinham um desfecho funesto ainda que os oráculos alertassem para o final doloroso e inevitável. Na peça Édipo Rei (Sófocles, 427 a.C) não faltaram sinais proféticos do oráculo de Delfos e do cego Tirésias.

No Brasil, a tragédia é uma imperdoável crônica de mortes anunciadas, previsíveis e evitáveis. A narrativa não varia: é soma da irresponsabilidade geral, empreitadas suspeitas, descaso com os riscos, negligência na manutenção de equipamentos, tudo concorrendo para um final terrível.

Seguem-se luto profundo, dor coletiva e, com o passar do tempo, as lições são arquivadas no vasto território de esquecimento sob o manto da impunidade.

Impossível destacar o mais cruel e doloroso dos eventos.

Dentro de mim, no entanto, ardem as labaredas do futuro incendiado dos jovens integrantes das equipes de base do Flamengo.

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Explico: fui moleque peladeiro dos subúrbios recifenses; crescemos juntos eu, medíocre, ainda dei chutes tortos no juvenil do Sport; o futebol, desde então, passou a ser uma paixão lúdica, clubística e intelectual; família competitiva e amorosa; escola de vida que ensinou solidariedade aos companheiros e respeito aos adversários; aprendi o significado da meritocracia: os melhores brilharam em equipes profissionais.

Isto me levou, como desportista, a defender ardorosamente o que o Brasil, de um modo geral, negligenciou: investir na juventude, o mais precioso tesouro de uma nação.

Cansei. Fracassei com o meu discurso obsessivo de propor investimentos na formação dos atletas. Em vão. As talentosas gerações espontâneas fizeram do Brasil pentacampeão até que fomos humilhados, em casa, pelo placar cabalístico: 7×1. O imediatismo triunfou.

Triste, afastei-me do futebol. Não aguento o protocolo das filas indianas dos times, entrando em campo, a mando da FIFA, multinacional de comportamento duvidoso. Antes, a entrada em campo já incendiava a emoção das torcidas. E os jogos, no Brasil, tornaram-se passes burocráticos na horizontal. O passe vertical e o drible passaram a ser proibidos pelo medo de perder. Um saco. É chutão, bola parada e a improvável emoção do gol.

Jogar futebol para os garotos é um salvo-conduto da marginalidade e um passaporte para cidadania. Agora, é cinza.

Resta-me sonhar com o anjo que encantaria com a magia do drible e guardar a lembrança banhada em lágrimas pelo sentimento insuperável do amor fraterno que resiste às vidas perdidas.

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