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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Michel abriu a caixa e soltou os militares

A destruição da democracia é feita por dentro, possibilitada pelas próprias instituições democráticas.

Por Helena Chagas 5 abr 2018, 14h02

A ciência política vem utilizando o conceito de pós-democracia para tratar da decadência da democracia representativa, descrevendo situações em que os ritos democráticos formais estão sendo cumpridos, as instituições aparentemente funcionam, mas não há democracia plena. Vários fatores concorreriam para isso, incluindo a influência cada vez maior do poder econômico sobre a política e os governos – pelos mercados internacionais e seus organismos, por exemplo – e o crescente distanciamento entre os políticos e o público, uma desconexão total entre representantes e representados. Um dos aspectos mais insidiosos do processo é que a destruição da democracia é feita por dentro, possibilitada pelas próprias instituições democráticas.

Não sou cientista política, mas qualquer leigo pode reconhecer por aqui essa tendência – presente em boa parte das grandes democracias ocidentais. Ainda que talvez nunca tenhamos tido uma democracia plena, completa a ponto de atender todas as necessidades da cidadania e prover o bem estar geral, há um cheiro de retrocesso no ar.

Não há como não pensar nisso diante da polêmica em torno do tuíte de um general às vésperas de um julgamento importante na suprema corte do país. Há quanto tempo não se dava tanta atenção, no Brasil, às palavras de um militar sobre política?

Comandante do Exército, o general Villas Boas, embora não tenha citado nomes nem dito nada absurdo, sentiu-se à vontade para dar sua opinião sobre a impunidade no contexto do julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula por um STF cercado de pressões. Certamente, terá se sentido pressionado por seu público interno, o das casernas, que andaria em polvorosa. Mas o que é que, num governo civil, os militares têm com isso mesmo?

Tecnica e politicamente, não têm nada com isso. E poderiam estar se comportando como fizeram nos últimos 33 anos, desde a redemocratização do país. Quietos no seu canto, cuidando dos assuntos do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

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Só que não. Por uma série de circunstâncias, que talvez tenham começado lá no impeachment de uma presidente eleita por “pedaladas fiscais”, instalou-se no Planalto um governo não eleito e fraco que deu aos militares poderes que eles não tinham há mais de três décadas.

Com a intervenção na segurança do Rio, militarizada de cabo a rabo, Michel Temer abriu uma caixa de Pandora. Trouxe de volta ao cenário o poder militar, num papel de salvador da pátria. Há quem diga que o Exército, que num primeiro momento viu a missão com certo receio e resistência, agora começou a gostar de governar o Rio de Janeiro. Quem sabe, terá também se animado a ter um papel mais ativo no campo político.

As consequências disso? Não temos a menor ideia.

Nasci e cresci sob um regime militar, amadureci na democracia e ando muito desconfiada com a possibilidade de envelhecer nessa tal pós-democracia…

Helena Chagas é jornalista desde 1983. Exerceu funções de repórter, colunista e direção em O Globo, Estado de S.Paulo, SBT e TV Brasil. Foi ministra chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (2011-2014). Hoje é consultora de comunicação 

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