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Marina: de Camaleoa a Jaguatirica na sabatina da Globo News

Marina Silva segue na mesma trilha em 2018. Sem abrir mão de princípios e projetos de governo e de País. É provável que não cheque ao Palácio do Planalto

Por Vitor Hugo Soares 4 ago 2018, 15h00

A aparentemente frágil e isolada Marina Silva foi sabatinada terça-feira, último dia de julho, por jornalistas do canal privado de televisão Globo News, na série de entrevistas promovida com os principais presidenciáveis às eleições deste ano. No páreo dos mais bem avaliados nas pesquisas até aqui – pela terceira disputa seguida – a candidata (ex-PT, ex-Verde e atual Rede Sustentabilidade) – não se esborrachou em negativas e contradições, como alguns esperavam e, não poucos, até torciam. Vestida de branco e despojada de adereços, foi às vezes arisca como Jaguatirica amazônica, outras tantas fo i camaleoa (ou camaleão fêmea como preferem os puristas da língua e acadêmicos), a depender das questões e dos modos dos questionadores.

A cara e a voz da chamada terceira via no Brasil se apresentou, na maior parte do tempo, como força conciliadora progressista e cristã. Protestante, quando tudo ao seu redor é barril, pau puro, vale tudo de ataques com palavras ferinas, fake news, ameaças de puxar o revólver ou os cabelos e até chamar “baionetas caladas e falantes” (no dizer de Ulysses Guimarães) dos círculos militares, para o baile político e civil da campanha e do governo. Vacilou e derrapou em alguns momentos, mas não pediu arrego, nem perdeu o rumo.

A começar pelas escolhas de defesa que fez –uma delas a continuidade do combate sem trégua a corruptos e corruptores na política, no governo e nas poderosas corporações públicas e privadas, através do incentivo e apoio político e institucional explícito à Lava Jato; e contra a tentativa de fazer do servidor público (na proposta de Reforma da Previdência) o bode expiatório da crise nacional, à guisa de combater privilégios.

Priorizou, também, suas opções de ataques: destacou o fracasso rotundo do governo Temer (MDB), decorrente segundo a sabatinada, do conluio da incompetência com a cumplicidade de “corruptos dentro dos palácios” . Atacou, além disso, o que qualificou de dubiedades e perigo, dos discursos do medo ou o deixa ficar de candidatos como o deputado-militarista Bolsonaro (PSL) e do tucano Alckmin, neste caso para agradar o chamado Centrão. Bateu, também, no que definiu como “manobras mal disfarçadas, das chicanas judiciais ou propostas de indulto político que favorecem a impunidade”, a exemlo dos que postulam a soltura do ex-presidente Lula, condenado a 12 anos e um mês de cadeia por corrupção passiva e lavagem de dinheiro .

Ainda sobraram flechas para Dilma Rousseff, desavença antiga, desde as batalhas ambientalistas, quando ambas pertenciam ao PT, mas não se bicavam. Confrontada pelos entrevistadores, com assuntos particular e pessoalmente espinhosos, a candidata da REDE fez volteios e jogo de corpo. Advogou um plebiscito para a questão do aborto, caso se pretenda promover alterações na lei em vigor. À pergunta se sua religião evangélica poderia interferir em suas decisões de governo, reagiu: “Me mostre um projeto meu que foi na contramão do estado laico e da liberdade das pessoas”. E subiu o tom: “Não vejo as pessoas questionarem a fé de candidatos católicos como Geraldo Alckmin”, protestou na sabatina.

Terceira colocada nas presidenciais de 2010 e 2014, Marina Silva segue na mesma trilha em 2018. Sem abrir mão de princípios e projetos de governo e de País. É provável que não cheque ao Palácio do Planalto , mas ficou patente, que ela está pronta para o embate político, e decidida a fazer bonito na campanha eleitoral, com Eduardo Jorge (PV) como vice. Se possível, surpreender. Inesperadamente.

 

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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