Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia
Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Maioria barulhenta reformou a política

Abertas as urnas, a maioria nada silenciosa implodiu o sistema

Por Hubert Alquéres Atualizado em 30 jul 2020, 20h16 - Publicado em 10 out 2018, 14h00

Partidos e políticos tradicionais tinham concebido o modelo perfeito para se perpetuarem no poder, com o engessamento da eleição por meio de regras que inviabilizavam qualquer renovação política. Campanha mais curta, recursos do financiamento público concentrados nas mãos dos caciques partidários e tempo televisivo assegurariam a reeleição dos atuais parlamentares, bem como a continuidade do presidencialismo de coalizão.

Só não combinaram com os eleitores.

Abertas as urnas, a maioria nada silenciosa implodiu o sistema, promovendo uma renovação que só encontra similar na longínqua eleição plebiscitária de 1974, quando o eleitorado deu um sonoro não à ditadura militar. O resultado de 2018 não é só contra o petismo, mas contra a classe política e a quase tudo que se identifique com a velha política, seja de esquerda ou de direita. O PSDB, o MDB e o PT em graus diferentes foram profundamente atingidos pelo tsunami eleitoral.

Não necessariamente isto redundará em um Parlamento melhor, até porque, na onda antissistema, foram ceifados políticos com larga folha de bons serviços prestados ao país. E muita coisa nova pode se revelar velho. Mas a bomba de Hiroshima jogada no velho e carcomido mundo da política não deixa de ser positiva, sobretudo se os partidos tradicionais tiverem a humildade de reconhecer seus erros e promoverem seu aggiornamento.

Parte ponderável dos parlamentares que agora chega ao Congresso não deve sua eleição a mecanismos tradicionais e sim por ter sabido surfar na onda. Um Parlamento mais pulverizado e com grandes partidos fragilizados diminui o espaço de barganha da caciquagem que sempre deu as cartas no Congresso Nacional.

Imaginava-se um Jair Bolsonaro, se eleito, dependente, sem base parlamentar e, portanto, frágil diante do Congresso.

Continua após a publicidade

As urnas desmentiram cabalmente tal estimativa. De partido nanico, seu PSL pulou para a segunda bancada na Câmara Federal. Se Lula foi o grande eleitor nos anos dourados do lulopetismo, o grande eleitor de 2018 foi Bolsonaro, como comprovam as disputas para governador do Rio, de Minas Gerais, Paraná e outros Estados. Quem se elegeu na sua onda terá mais fidelidade à ele do que à legenda. Em síntese, o presidencialismo de coalizão no mínimo será redesenhado, se é que continuará.

Gostemos ou não, Bolsonaro está em sintonia com uma maioria barulhenta que vem gritando desde 2013 contra a qualidade dos serviços públicos e contra a corrupção. As jornadas do impeachment amplificaram sua insatisfação com o mundo da política inteiramente alheio aos seus anseios por honestidade e segurança.

Solenemente a classe política e seus partidos fizeram ouvido de mercador ao barulho das ruas e das redes sociais. Imaginaram que passariam impunes nas eleições, como se a Lava-Jato e a violência que aterroriza a população não repercutissem nas urnas.

O PSDB foi duramente punido porque frustrou as expectativas de um eleitorado que votou massivamente nos tucanos em 2016. Já o PT, com a sua petulância de sempre, se recusou a reconhecer qualquer delito entre os diversos que cometeu e fez da defesa de Lula sua principal bandeira. Imaginar ser possível reverter sua derrota no segundo turno apenas com a demonização de Bolsonaro é o caminho mais rápido para uma nova derrota.

No passado Lula era o efeito teflon. Hoje Bolsonaro é esse fenômeno. Nada cola nele porque representa o antissistema, o diferente de tudo o que está aí.

Hubert Alquéres é professor e membro do Conselho Estadual de Educação (SP). Lecionou na Escola Politécnica da USP e no Colégio Bandeirantes e foi secretário-adjunto de Educação do Governo do Estado de São Paulo 

Continua após a publicidade
Publicidade