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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Geraldo vai bater em quem?

Alckmin precisa desconstruir Bolsonaro para cavar um lugar no segundo turno. Será?

Por Helena Chagas 23 ago 2018, 14h00

Chegou a hora de bater. Todo mundo sabe que, daqui a pouco mais de uma semana, quando começar a propaganda eleitoral na TV, Geraldo Alckmin, dono de um latifúndio nesse horário, vai centrar fogo em Jair Bolsonaro, que roubou boa parte de seu eleitorado conservador no Sul e no Sudeste, inclusive e sobretudo em São Paulo. A avaliação do senso comum é que Geraldo precisa desconstruir Bolsonaro para cavar um lugar no segundo turno. Será? É uma estratégia duvidosa, que pode trazer resultados mais duvidosos ainda.

Em primeiro lugar porque, segundo ensina o beabá do marketing político, o ataque muitas vezes vira tiro no pé. Quando não é bem feito, vitimiza o outro sujeito e acaba se voltando contra quem ataca. Nunca é bom deixar a digital do candidato em peças de propaganda negativa, ou destrutiva, e esse tipo de coisa tem que muito bem feito para surtir efeito e não contaminar o agressor com a pecha da baixaria.

Mas a principal razão pela qual aliados de Geraldo Alckmin já o estão procurando para pedir uma mudança na estratégia de bater em Bolsonaro tem como base uma avaliação da rodada de pesquisas da semana. Tanto o Datafolha quanto o Ibope, reforçados pelo MDA da semana passada, trouxeram dois dados coincidentes e incontestáveis: o crescimento de Lula, mesmo na cadeia, e a consolidação de Jair Bolsonaro num patamar em torno dos 20%, que o coloca em primeiro lugar na disputa sem Lula.

Embora se tratando de um cenário de momento, que pode e deve sofrer variações em seis semanas, esses observadores acham que o capitão-deputado conquistou apoio suficiente para estar num segundo turno, ainda que venha a cair um pouco. E que a missão de Geraldo de desconstruí-lo e tomar seu lugar já estaria beirando o impossível, além de colocá-lo na difícil situação de criticar uma escolha de um eleitor que um dia já foi seu e, em tese, poderia voltar a ser.

Sob esse ponto de vista, Bolsonaro já está na final – onde, ironicamente, tem boas chances de ser derrotado – e a disputa será travada, sim, em torno da outra vaga do segundo turno. Por isso, esses aliados estão aconselhando o candidato tucano a voltar seus canhões para Fernando Haddad, que vai entrar no lugar de Lula e tem muita chance de crescer com seu espólio.

Se o tucano e seus marqueteiros aceitarem a sugestão, o alvo seria a condição de “poste” de Haddad, e não exatamente Lula – em quem, a julgar pelas pesquisas, ninguém tem muito ânimo em bater. O ex-prefeito de SP teria sua condição comparada à da ex-presidente Dilma Rousseff, outro “poste”, e a crise econômica que começou em seu governo o argumento principal.

Assim como a outra, essa estratégia também pode ser duvidosa. O simples fato de estar sendo discutida, porém, reflete o grau de incerteza e insegurança das campanhas de quem, como Alckmin, vê o tempo passar e o quadro mudar muito pouco. Emoção garantida nas próximas semanas.

 

Helena Chagas é jornalista desde 1983. Exerceu funções de repórter, colunista e direção em O Globo, Estado de S.Paulo, SBT e TV Brasil. Foi ministra chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (2011-2014). Hoje é consultora de comunicação  

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