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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Bolsonaro arrisca-se a enfrentar um processo de impeachment

Nova acusação: o uso do aparelho de Estado em defesa dos filhos

Por Ricardo Noblat Atualizado em 12 dez 2020, 03h33 - Publicado em 12 dez 2020, 08h00

O presidente Jair Bolsonaro sabia que a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), que não é órgão de governo, mas de Estado, orientou a defesa do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na tentativa de salvá-lo da acusação de ter embolsado dinheiro público quando era deputado estadual no Rio de Janeiro?

Essa é mais uma pergunta que teima doravante em não calar, e que se reúne a um monte de outras que Bolsonaro e seus auxiliares se recusam a responder. Uma não tão antiga: por que Fabrício Queiroz e Márcia, sua mulher, depositaram 89 mil reais na conta bancária de Michelle Bolsonaro, a primeira-dama?

Se Bolsonaro sabia que a ABIN, chefiada por um delegado amigo dele e dos filhos, ajudou a defesa de Flávio, cometeu crime de responsabilidade previsto na Constituição e está sujeito a responder a processo de impeachment.  O Centrão, seu aliado, tem votos para impedir a cassação do mandato. A não ser…

Que ironia! No dia em que se tornou público que a ABIN, em dois relatórios enviados a Flávio e aos seus advogados, ensinou-lhes o caminho das pedras para garantir a impunidade do senador, um juiz paulista arquivou processo por falta de provas contra Lula e seu filho Lulinha, investigados por lavagem de dinheiro.

É a sétima investigação contra Lula que é encerrada por falta de elementos ou absolvição. Lula foi condenado apenas em processos abertos perante a Lava-Jato de Curitiba, conduzidos pelo então juiz Sérgio Moro. O Supremo Tribunal Federal ainda irá analisar a suspeição de Moro e poderá anular as condenações.

No seu primeiro mandato como presidente, Lula apanhou sem dó nem piedade porque uma lancha a serviço do Palácio da Alvorada foi usada por seus filhos adolescentes para um passeio com amigos no lago Paranoá. O ato configurava quebra de decoro, de abuso do cargo por parte do pai omisso e cúmplice dos filhos.

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Bolsonaro tem quatro filhos homens, adultos, e uma filha ainda criança. Sorte do Brasil que não tenha mais. Os três primeiros zeros são alvos de denúncias de corrupção. O quarto zero montou uma empresa de eventos, passou a fazer lobby para empresários e usufrui favores de um prestador de serviços ao governo do pai.

Por certo, nada que seja estranho a Bolsonaro. Como os filhos, ele já empregou funcionários fantasmas em seu gabinete quando era deputado. Manteve um apartamento funcional cedido pela Câmara embora fosse proprietário de outro em Brasília. Costumava pagar despesas com dinheiro vivo como os filhos fazem.

Dotado de uma inteligência apenas mediana e de nenhuma emocional, desprovido de escrúpulos, não distingue entre o público e o privado e mistura tudo para extrair vantagens. O bem estar e o enriquecimento da família estão acima de qualquer coisa, incluindo os interesses do país que preside acidentalmente.

Não será fácil para ele escapar sem graves sequelas do Abingate. Local do crime: o Palácio do Planalto onde há poucos meses a operação para proteger Flávio foi discutida. Sócios do crime: Bolsonaro, Alexandre Ramagem, chefe da ABIN, e o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional.

O crime: obstrução de Justiça. Prova documental: os relatórios produzidos pela ABIN que os advogados de Flávio confirmam que receberam. A ABIN nega a autoria dos relatórios, assim como o general Heleno. Vão negar o resto da vida. Mas eles e Bolsonaro já admitiram a reunião com os advogados no Palácio do Planalto.

Está aí o último serviço que o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) poderia prestar ao país na condição de presidente da Câmara – aceitar um dos mais de 50 pedidos de abertura de impeachment contra Bolsonaro que dormem em sua gaveta. Ou um dos próximos que serão naturalmente apresentados.

Motivos para isso não faltam e, em breve, o governo oferecerá mais um – o eventual fracasso da vacinação em massa dos brasileiros contra a Covid-19. Em março último, o então ministro Luiz Mandetta, da Saúde, previu que se o governo nada fizesse, morreriam até dezembro 180 mil pessoas. Cumpriu-se a previsão.

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