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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Bolsonaro abraça a TV Brasil (por Mary Zaidan)

Ao presidente, para o qual o Estado é puxadinho de sua casa e casamata para sua família, pouco importa se a publicidade é ilegal ou amoral

Por Mary Zaidan - Atualizado em 18 out 2020, 02h37 - Publicado em 18 out 2020, 09h00

Abraços são demonstrações de afeto, de alegria ou de força nos momentos de dor. Por vezes, naufragam oportunistas. Por outras são imorais, ilegais ou ambos. Há duas semanas, o caloroso abraço entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro do Supremo Dias Toffoli selou a reedição dos eternos conluios brasilienses, nos quais os participantes gargalham de quem ousa mexer no arranjo. Na terça-feira, dois outros abraços, desta vez enviados ao presidente durante o jogo Peru x Brasil, também foram simbólicos, escancarando a farsa de que ele teve algum dia a pretensão de extinguir o que nasceu para ser TV Lula e agora é TV Bolsonaro.

A armação para que a TV Brasil transmitisse a partida depois que a Globo se negou a pagar a fortuna exigida pelos peruanos continua sendo uma incógnita. Ninguém sabe quanto custou e, muito menos, quem pagou. Mas todos os 4% de telespectadores que deram ao canal a maior audiência de sua história – em alguns picos chegou a registrar 12% – ouviram o narrador André Marques mandar abraços para Bolsonaro e seu secretário de Comunicação Fabio Wajngarten, e também para o presidente da CBF, Rogério Caboclo. Algo imoral, irregular, ilícito. Impossível de se admitir em uma TV dita pública.

Dois pedidos, um no Ministério Público Federal e outro no Tribunal de Contas da União, foram protocolados pelo deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) para que se investigue o uso da TV Brasil como promoter de Bolsonaro. Fala-se ainda em uma ação pública contra a utilização do canal para o oba-oba pró-presidente.

A Bolsonaro, para quem o Estado é puxadinho de sua casa e casamata para sua família, pouco importa se a publicidade é ilegal ou amoral. Entronizou Kassio Nunes Marques, seu escolhido para o STF, ao abraçar Toffoli, e abraçou de vez a mastodôntica TV Brasil, a mesma que ele jurava vender ou fechar por não “servir para nada” e “ter traço de audiência”.

Criada por Lula em 2007, a TV Brasil é uma sucessão de absurdos. É o ativo mais caro da EBC – seu custo supera em mais de 10 vezes o da Agência Brasil, principal canal de notícias do governo – e o que gera menos benefícios. A não ser para os seus 1.800 funcionários e, claro, para o presidente de plantão. Já consumiu mais de R$ 500 milhões ao ano nos tempos áureos, baixando para R$ 153 milhões no último ano do governo Michel Temer.

A ideia de acabar com a TV Brasil nunca foi levada à sério. Já nos primeiros dias de governo, Bolsonaro foi seduzido pelos militares a transformá-la em um canal assumidamente governista. Nada desse papo de TV pública. O melhor, diziam, era mantê-la ativa, reprogramá-la, enxugá-la.

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Da boca para fora repetiam a mentirinha de que queriam criar algo semelhante à BBC, com participação privada. O mesmo blá-blá-blá da era Lula.

Diziam ainda que seria feita uma redução severa nos custos da emissora. Qual o quê. Em 2019, a TV Bolsonaro comeu R$ 138,3 milhões e de janeiro a setembro deste ano já engoliu mais de R$ 144,8 milhões. Até dezembro baterá facilmente os gastos de Temer. Vai precisar, portanto, de distribuir muitos abraços em troca de empurrões misteriosos como os da CBF.

Fábio Faria, ministro das Comunicações, chegou a acalentar o sonho de ampliar os horizontes da TV governamental, utilizando-a como ponta de lança para dar um trato na combalida imagem do Brasil no exterior. Seria uma versão global, uma TV Bolsonaro World que, para o bem do contribuinte brasileiro e do país, não saiu do papel.

Mais do que uma TV para chamar de sua – até porque a audiência dela continuará sendo traço sem os gols de Neymar -, Bolsonaro e seu time mexem na comunicação pública sem qualquer escrúpulo. No afã de derrubar a “arquiinimiga” Globo, distribuem verbas publicitárias sem respeitar critérios objetivos de audiência, privilegiam canais evangélicos e influenciadores digitais amigos.

O processo aberto no Supremo Tribunal Federal para investigar fake news e atos antidemocráticos determinou o recuo dos combatentes bolsonaristas que se utilizavam da publicidade imoral, financiada por fontes escusas. Ao mesmo tempo, exigiu mais dos que lidam com a oficialidade. Deles vem a multiplicação dos abraços que afogam o país. Todos os dias e em todos os sentidos.

Mary Zaidan é jornalista

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