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Augusto dos Anjos, um poeta para sempre (Por Ruy Fabiano)

A dimensão estética de sua obra excede a singularidade de seu vocabulário

Por Ruy Fabiano Atualizado em 18 nov 2020, 19h47 - Publicado em 25 out 2020, 13h00

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (1884-1914) – ou simplesmente o poeta Augusto dos Anjos – é figura singular na literatura brasileira. Não se filiou a qualquer escola literária e não deixou seguidores. Morreu jovem, aos 30 anos, e publicou um único livro – “Eu”, acrescido, após sua morte, de poemas inéditos e reeditado sob o título “Eu e Outras Poesias”.

É o único documento literário de sua passagem por este mundo. E, no entanto, garante-lhe lugar de prestígio no panteão de poetas da língua portuguesa, entronizando-o no cânone da literatura brasileira como um de seus clássicos.

Figura máxima do que posteriormente passou a se chamar de “poesia científica”, Augusto dos Anjos, no entanto, repele rótulos e, a rigor, não se ajusta a nenhum.

Paraibano de Sapé – nasceu no Engenho Pau D’Arco, na região da várzea nordestina -, era filho de um senhor de engenho e tinha sete irmãos. Teve, pois, meios de se educar, e formou-se em direito no Recife. Voltou à Paraíba, onde se casou e passou a lecionar no Lyceu Paraibano. Divergências políticas com o governador do estado (dizia-se então presidente da província), acrescidas de debilidade na saúde (padecia de tuberculose, que o levaria à morte precoce), mudou-se para o Rio de Janeiro.

Antes, lançou seu único livro, custeado por ele e seu irmão Odilon. Foi em 1912. O livro, porém, passou ao largo do interesse da crítica. Nem notoriedade, nem escândalo. Indiferença.

Ali estavam 58 poemas, explorando temas esquisitíssimos, em que, conforme notaria posteriormente Manuel Bandeira, não se falava do amor carnal, mas apenas do amor metafísico. Augusto dos Anjos considerava o amor carnal “comércio físico nefando”.

No poema “Queixas Noturnas”, faz esta surpreendente confissão, que deve ter chocado o ambiente literário de então, povoado de parnasianos e simbolistas, que faziam da musa não apenas objeto de admiração, mas também de intensa fruição física:

“Não sou capaz de amar mulher alguma

Nem há mulher talvez capaz de amar-me”

E sustentava seu particularíssimo conceito metafísico de amor:  “ (amor) É espírito, é éter, é substância fluida/É assim como o ar que a gente pega e cuida /Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, Imponderabilíssima e impalpável/Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes

Não apenas os conceitos que sua poesia emitia eram surpreendentes. Da mesma forma, os vocábulos que empregava para expressá-los. Vejam-se os versos iniciais de “Monólogo de uma Sombra”, poema com que abre o “Eu”, e que vale por um auto-retrato: Sou uma sombra! Venho de outras eras / Do cosmopolitismo das moneras…Pólipo de recônditas reentrâncias/ Larva do caos telúrico, procedoDa escuridão do cósmico segredo/ Da substância de todas as substâncias!

E vai por aí. A terminologia “esquisita” (palavras ainda de Manuel Bandeira) provocava escárnio nos meios literários. Os que o levavam a sério viam nele parentesco com Euclides da Cunha, que tinha também se servido de amplo glossário científico para adensar sua literatura. O parentesco, porém, termina aí.

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A dimensão estética de sua obra excede a singularidade de seu vocabulário – e o distancia de Euclides.

O conteúdo dos poemas, sua atmosfera lúgubre, era – e é – única. O reconhecimento de sua arte dá-se depois de sua morte. Pouco a pouco, a academia começa a vê-lo como o que de fato o é: um artista superior, original, que, não obstante a exigüidade de sua produção, destinava-se à permanência.

Carlos Drummond de Andrade foi um dos que o estranharam, mas que, depois, o reconheceria na proporção gigante de sua obra e talento. Considerou-o o mais original poeta da literatura brasileira.

Josué Montello ia ainda mais longe: considerou-o “uma das figuras mais importantes do Brasil”. Nada menos.

A complexidade de sua linguagem – e esse é um dos seus muitos mistérios – não impediu (e não impede) que se tornasse um poeta popular, citado e recitado pelo leitor não especializado.

Um de seus versos tornou-se emblema da dualidade humana, repetido como um dito popular, sem dono: “A mão que afaga é a mesma que apedreja” (“Versos Íntimos”), repetido, ao longo de gerações, como axioma da fragilidade moral do ser humano.

A atualidade de Augusto dos Anjos é incontestável. Teve sua obra completa editada em luxuosa edição em papel bíblia, da editora Nova Aguillar, acompanhada de vasta fortuna crítica, privilégio reservado aos autores canônicos.

Acima de escolas, modismos, cronologias ou outros condicionamentos, a obra de Augusto dos Anjos está definitivamente inscrita na história das letras da língua lusa. A língua de Camões, Fernando Pessoa e Machado de Assis. A língua de Augusto dos Anjos.

 

 

Ruy Fabiano é jornalista

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