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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Apagão energético (por André Gustavo Stumpf)

É fácil produzir energia no Amapá por intermédio da energia solar ou eólica

Por André Gustavo Stumpf Atualizado em 18 nov 2020, 19h44 - Publicado em 17 nov 2020, 14h00

Boa pergunta para derrubar estudantes no Enem: com que país a França tem a mais extensa fronteira terrestre? Itália, Bélgica ou Alemanha? Nenhum deles. É com o Brasil, especificamente com o Amapá, que faz fronteira com a Guiana Francesa, (um departamento ultramarino). A linha de 730 quilômetros divide os dois países, neste momento um eletrificado, outro no escuro e duas moedas. Lá é euro.

A demarcação foi realizada pelo Barão do Rio Branco, em 1900. Naquela época, o Barão recomendou que fosse aberta a estrada ligando Macapá a Oiapoque para garantir a presença brasileira no extremo norte do país. A estrada existe, é a rodovia BR-156 com 595 quilômetros de extensão, mas ainda aguarda o asfalto em 150 quilômetros. O governo brasileiro não costuma dar muita atenção ao norte.

Exemplo disto é a explosão de um gerador na subestação de Macapá no início do mês. O estado ficou no escuro. Não havia redundância, nem alternativa para geração. Depois de dias de trevas, surgiu um tímido rodízio para mitigar problemas resultantes do corte de energia. A criminalidade explodiu, faltou água, escolas fecharam, hospitais não funcionaram. Isso ocorreu em plena pandemia provocada pela covid-19. A eleição municipal em Macapá foi adiada.

O Amapá apagado é a fotografia da crise da energia em toda sua dimensão. Nos anos setenta, os técnicos do setor entenderam que o melhor caminho para garantir energia em todo o país era construir grandes hidrelétricas e montar longas linhas de transmissão. Naquele período, os grandes aproveitamentos energéticos no centro sul do país já tinham sido utilizados.

Grandes hidrelétricas, depois de Itaipu, só poderiam ser construídas na região norte. Assim surgiu a hidrelétrica de Tucuruí, inaugurada nos anos oitenta, com capacidade para produzir 4.000 MW. Hoje ela produz 8.000 MW. Boa parte dos estados do nordeste são abastecido pela hidrelétrica situada no sul do Pará.

Mas também essa política produziu equívocos pesados, do que o melhor exemplo é a hidrelétrica de Balbina, nas proximidades de Manaus. Alagou área de 2.370 quilômetros quadrados para produzir apenas 250 MW, uma fração do necessário para abastecer Manaus. Erro semelhante foi a construção de Belo Monte, no rio Xingu, que deve gerar 11.233 MW, mas no período de seca produz menos da metade disso. Inundou área menor, 478 quilômetros quadrados, no entanto provocou remanejamento de pessoal e diversos problemas ambientais.

Em tempos recentes a geração de energia eólica se expandiu muito no Brasil, sobretudo no Nordeste. O Rio Grande do Norte é praticamente autossuficiente (1.124 MW) em matéria energética porque avançou muito no aproveitamento da energia dos ventos. A Bahia é o estado que hoje tem o maior parque eólico, que gera 1.161 MW, dados de 2019. No estado fica o maior complexo eólico do país, na região de Caetité, Guanambi, Igaporã e Pindaí.

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É energia limpa que também produz recursos para os donos de terra. As empresas pagam para usar áreas onde instalam as suas grandes torres, os geradores de energia. No Brasil, hoje, 16 GW de energia são gerados pelo método eólico com 637 parques e 7.738 aerogeradores.

A geração hidrelétrica caminha para o norte e faz com que as linhas de transmissões fiquem cada vez mais longas. As duas grandes hidrelétricas do Rio Madeira, em Rondônia, trabalham com linhas de transmissão de mais de três mil quilômetros de comprimento. Há muita perda de energia no trajeto, além de ser um desafio permanente para manutenção e a segurança de todo o sistema.

Um incêndio próximo aos cabos desliga o sistema e pode apagar regiões inteiras. O sistema interligado nacional é bonito de ver, mas significa risco.

No caminho do norte, o sistema interligado encontrou o Rio Amazonas. É difícil e caro atravessá-lo. As empresas lançaram o cabo, ultrapassaram o rio, e chegaram a Macapá. É o que se pode fazer pelo método antigo. Os técnicos de hoje, orientados pelo pensamento dos anos setenta, não enxergam possibilidades nas energias eólica ou solar.

O norte do Brasil está situado na linha do Equador. É a região de maior insolação do mundo. Mas não há geração de energia solar na Amazônia. É fácil produzir energia no Amapá por intermédio da energia solar ou eólica. Em Roraima, que não está ligado ao sistema interligado nacional, também. É possível gerar energia solar e eólica nos mais remotos pontos da Amazônia.

Ninguém precisa mais de cabos e torres para acender a luz em qualquer ponto de território nacional. É preciso abrir os olhos e descobrir que o século 21 chegou.

 

Formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), onde lecionou Jornalismo por uma década. Foi repórter e chefe da sucursal de Brasília da Veja, nos anos setenta. Participou do grupo que criou a Isto É, da qual foi chefe da sucursal de Brasília. Trabalhou nos dois jornais de Brasília, foi diretor da TV Brasília e diretor de Jornalismo do Diário de Pernambuco, no Recife. Durante a Constituinte de 88, foi coordenador de política do Jornal do Brasil. Em 1984, em Washington, Estados Unidos, obteve o título de Master em Políticas Públicas (Master of International Public Policy) com especialização política na América Latina, da School of Advanced International Studies (SAIS). Atualmente escreve no Correio Braziliense. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀ ⠀⠀⠀⠀

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