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Aliança anti-Moro

O que uniu adversários de Lula a seus aliados nesta quarta-feira foi o evidente enfraquecimento da Lava Jato

Por Helena Chagas Atualizado em 30 jul 2020, 19h31 - Publicado em 8 ago 2019, 10h00

O fato político da semana não foi a aprovação do segundo turno da Previdência na Câmara, e talvez nem mesmo o julgamento vapt-vupt do Supremo Tribunal federal que suspendeu a intempestiva decisão da Justiça Federal em Curitiba de transferir o ex-presidente Lula para o presídio de Tremembé (SP). A maior surpresa terá ficado entre esses dois eventos, quem sabe uma ponte a juntar os dois, com a onda de repúdio parlamentar à ordem de transferência de Lula que se ergueu nos plenários da Câmara – onde se debatia a Previdência – e do Senado.

É improvável que tenha surgido de súbito, no parlamento, um movimento de solidariedade suprapartidária ao ex-presidente, incluindo do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), ao tucano de Minas Paulo Abi-Ackel, passando por vários deputados do Centrão – sem contar, evidentemente, o PT e demais partidos de oposição. Eles se levantaram contra o que chamaram de absurdo e perseguição a Lula. Organizaram um grupo com mais de 60 deputados para ir ao presidente do Supremo, Dias Toffoli, pedir a concessão da liminar que suspendeu a transferência.

Acima de tudo, o que uniu adversários de Lula a seus aliados nesta quarta-feira foi o evidente enfraquecimento da Lava Jato e seus comandantes. A sangria iniciada há quase dois meses com os primeiros vazamentos, no site The Intercept, das conversas impróprias entre o ex-juiz Sergio Moro, o procurador Deltan Dallagnol e outros, está matando de anemia a operação que comandou os destinos da política nos últimos quatro anos.

Seus principais personagens, Moro e Deltan à frente, sofrem acelerado processo de desgaste, animando o Congresso a, afinal, enfrentá-los e condenar os excessos na condução da operação. Com poucas exceções, há, em cada gabinete da Câmara e do Senado, um sujeito que teme o “efeito Orloff” à la Lula, na linha do “eu sou você amanhã”. E não é o caso apenas dos diretamente interessados, aqueles notoriamente acusados e investigados por corrupção. Mesmo quem nunca esteve no alvo, e muito provavelmente não tem razões para estar, teme os métodos e excessos inaugurados pela Lava Jato. E não os enfrentava antes para não se confrontar com a opinião pública.

Agora, chegou a hora de a onça beber água, até porque o STF mostrou que também está nesse jogo. É provável que essa inusitada aliança se desfaça ali na esquina. Até porque não é uma aliança pró-Lula, mas principalmente anti-Moro. Pode, porém, ter outras utilidades. Sintomaticamente forjada ao mesmo tempo em que se encerrava a votação da Previdência na Câmara, ela divide as forças de direita e mostra ao Planalto que outros eixos de poder estão se formando à sua revelia.

A dúvida que assola corações e mentes de Brasília nesse momento é por quanto tempo Jair Bolsonaro ainda irá sustentar Sergio Moro.

Helena Chagas é jornalista

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