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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A opção Biden (por Marcos Magalhães)

Dois trilhões de dólares em energia limpa

Por Marcos Magalhães - Atualizado em 19 ago 2020, 04h48 - Publicado em 19 ago 2020, 11h00

A partir de nossa pacata e periférica posição no Hemisfério Sul, cultivamos o hábito de observar as eleições dos Estados Unidos com os óculos do relacionamento bilateral. Teremos democratas protecionistas ou republicanos defensores do livre comércio? Neste ano, porém, é preciso estar mais atento: os votos dos eleitores norte-americanos terão peso maior do que o habitual na definição do novo cenário internacional.

Até recentemente, democratas e republicanos levavam suas prioridades ao poder sem maiores sobressaltos. A alternância do poder era mais suave. Até a chegada de Donald Trump. O atual presidente, que busca novo mandato, levou para a Casa Branca seu gosto pelo confronto. Renunciou ao Acordo de Paris sobre mudança climática, rompeu negociações comerciais, bateu de frente com aliados tradicionais e se aproximou de representantes da direita mais autoritária.

O bom desempenho da economia parecia garantir a sua reeleição. A pandemia, porém, se encarregou de confundir o cenário. Em nenhum lugar do mundo ocorreram tantas mortes por causa do coronavírus. O medo se espalhou entre a população, e a economia entrou em recessão pela primeira vez em 11 anos. De abril a junho, houve uma contração de 32,9%, a maior da história.

E agora? As convenções virtuais dos dois principais partidos, nesta semana, abrem uma campanha para algo que se parece mais com um plebiscito do que com uma eleição presidencial. Donald Trump talvez seja seu pior adversário, depois do fracasso de seu governo no combate à pandemia. Antes grande favorito, agora corre sério risco de tornar-se presidente de um só mandato.

Antiga face

Ele terá pela frente um Partido Democrata unido em torno de Joe Biden. Esse veterano político, que foi discreto vice-presidente do carismático Barack Obama, conseguiu se reinventar a tempo de chegar à convenção de seu partido com uma vantagem relativamente confortável em relação a Trump. Tudo pode mudar até novembro, como também tudo pode mudar bastante a partir de janeiro de 2021.

Biden sempre foi identificado como um político moderado, quando comparado, por exemplo, ao senador Bernie Sanders, autointitulado socialista. Mas a pandemia, a força da ala progressista de seu partido e o rigor da recessão o levaram a dar uma guinada à esquerda. Ele tem assumido bandeiras importantes para o eleitorado progressista, como a elevação do salário mínimo federal – de US$ 7,25 por hora para US$ 15.

Ao contrário de Trump, muito ligado aos interesses das empresas petrolíferas, Biden pretende adotar a mudança do perfil energético dos Estados Unidos como um dos motores principais para a recuperação da economia de seu país após a pandemia.

O candidato democrata promete investir dois trilhões de dólares em um programa de energia limpa, para, ao mesmo tempo, reativar a economia e combater a mudança climática. Ele busca uma emissão zero líquida de gases ligados ao efeito estufa até 2050. Para tanto, quer investir principalmente na eletrificação do setor de transportes.

Entre as principais metas está a de oferecer transporte público sem emissão de gases do efeito estufa em todas as cidades com mais de 100 mil habitantes, além de instalar infraestrutura adequada para pedestres e ciclistas.

Se os críticos alegam que as medidas vão acabar com muitos empregos na indústria de petróleo e gás, os defensores do programa preveem que as medidas ajudarão o país a recuperar a liderança tecnológica. Ao incorporarem sugestões do Green New Deal, como observa o jornal Financial Times, as medidas atendem à esquerda do Partido Democrata sem amedrontar os moderados.

De fato, mesmo Bernie Sanders parece confortável com a plataforma de seu antigo oponente nas eleições primárias. “Eu sei que não concordamos em todos os temas com Joe Biden”, disse ele a delegados do partido em recente videoconferência. “Mas neste momento nós precisamos nos engajar em uma política de coalizão com o objetivo de derrotar Trump”.

Nova face

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Talvez o principal exemplo de pragmatismo do Partido Democrata tenha sido a escolha da senadora Kamala Harris para compor, como candidata a vice-presidente, a chapa de Biden. De um lado, ela atrai o eleitorado progressista por ser mulher e negra. De outro, seu perfil moderado agrada a representantes do Vale do Silício e de Wall Street.

O site oficial da campanha de Biden ressalta as origens de Kamala: seu pai nasceu na Jamaica, e sua mãe na Índia. Foi a primeira mulher negra a tornar-se procuradora-geral da Califórnia e a representar seu estado no Senado dos Estados Unidos. Defendeu o Obamacare, plano de democratização dos serviços de saúde criado pelo ex-presidente, e o ousado programa da Califórnia para combater a mudança climática.

Como Biden completará 78 anos em novembro, Kamala vem sendo apontada como a principal aposta do Partido Democrata no futuro. Caso o candidato a presidente se eleja em novembro, provavelmente não vai buscar um segundo mandato. O caminho estaria então aberto para que a senadora assuma a liderança e dispute a Casa Branca em 2024.

Por tudo isso, é importante saber o que ela pensa do mundo. Algumas indicações importantes estão em entrevista que concedeu no ano passado à revista Foreign Policy, ainda como postulante nas primárias de seu partido. A atual candidata a vice-presidente reservou palavras duras a temas sensíveis das relações com a China e a Rússia.

Ela defendeu a colaboração com a China em temas globais como o combate à mudança climática, mas ressaltou a importância da defesa dos direitos humanos. Em sua opinião, os Estados Unidos não podem ignorar a presença de mais um milhão de uighurs em “campos de reeducação” na região de Xinjiang, ou o que considera “excessivo uso da força” da polícia chinesa contra os manifestantes pela democracia em Hong Kong.

A senadora também acusou a Rússia de usar força militar na Ucrânia e na Geórgia para tomar territórios e prejudicar governos democraticamente eleitos. A seu ver, a ocupação ilegal da Crimeia “é uma severa violação das normas internacionais que têm guiado o mundo desde a Segunda Guerra Mundial”.

Por outro lado, Kamala Harris criticou a postura de Donald Trump em relação ao Oriente Médio. Defendeu a solução de dois Estados para o conflito entre Israel e os palestinos. Em sua opinião, os palestinos deveriam ter o direito de governar a si mesmos em seu próprio Estado, “em paz e dignidade”, assim como os israelenses merecem uma “pátria segura para o povo judeu”.

Clima

Uma das principais mudanças sugeridas pela senadora para a política externa americana seria na área ambiental. Em primeiro lugar, propôs, os Estados Unidos deveriam voltar ao Acordo de Paris, “para que o mundo entenda que a América está falando sério sobre como enfrentar o mais complexo e duradouro desafio de nosso tempo, a mudança climática”.

É possível que Biden adote esta medida, caso venha a ser eleito. Ele sabe que os gestos têm grande importância nas relações internacionais. Depois de quatro anos de uma política de confronto adotada por Trump, um presidente democrata poderá redefinir a relação dos Estados Unidos com o resto do mundo. De certa maneira, poderá mesmo ajudar a redesenhar a história contemporânea.

 

 

 

Marcos Magalhães. Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018. ⠀

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