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A nova vitrine da direita mundial (Por Marcos Magalhães)

Subterrâneos do trumpismo

Por Marcos Magalhães Atualizado em 13 jan 2021, 02h09 - Publicado em 13 jan 2021, 12h00

Até o dia 20 de janeiro muita coisa ainda pode acontecer em Washington. As mais importantes redes sociais já desligaram o megafone de Donald Trump, mas os subterrâneos do trumpismo ainda prometem fortes emoções nos próximos dias. Nenhum momento poderia ser mais propício para quem quer levar ao mundo novas imagens de ódio e intolerância.

Já se sabe quem não estará entre as autoridades no dia da posse de Joe Biden: o próprio Donald Trump, que dessa forma quebra uma longa tradição na política norte-americana. Mas ainda não se sabe quem estará do lado de fora do Capitólio, que foi invadido por manifestantes no dia da confirmação dos resultados do Colégio Eleitoral.

Já houve momentos de grande emoção nos dias frios de inverno em que são realizadas as cerimônias de posse dos presidentes dos Estados Unidos. O mais recente deles foi o que marcou o início da administração de Barack Obama, o primeiro negro a presidir o país mais rico e poderoso do mundo.

Biden estava lá, como vice-presidente eleito. Agora ele será o dono da festa. Sem o mesmo charme de Obama, é verdade. Ou a mesma capacidade de hipnotizar plateias. Mas ele vai se apresentar como alguém que deseja pacificar o país, depois de quatro anos de uma gestão marcada pelos acenos frequentes à radicalização.

Em tempos de pandemia, é difícil prever se a posse de Biden vai levar milhares de simpatizantes democratas a Washington. É mais fácil imaginar que muitos republicanos da ala mais radical do partido tentem mostrar que, apesar da derrota nas urnas que não reconhecem, o trumpismo seguirá vivo.

Se alguns deles resolverem invadir mais uma vez o Congresso, provavelmente encontrarão pela frente um esquema de segurança mais atento que o do dia 6 de janeiro. Se levarem armas, como da última vez, tudo pode acontecer.

Cidadãos de bem

As imagens da invasão do Capitólio podem ter sofrido distorções no caminho até Brasília. O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, identificou nas cenas a ação de “cidadãos de bem” em luta contra “elementos do sistema político ou integrantes das instituições”.

Os manifestantes teriam agido como os fascistas? Nada disso, ensina o chanceler. Para ele, “deslegitimar o povo na rua e nas redes só serve para manter estruturas de poder não democráticas e seus circuitos de interesse”.

Se houve mortes e depredações, estas se devem provavelmente, na opinião do ministro, a opositores de Trump infiltrados na manifestação. O mais apaixonado dos seguidores do ainda presidente americano não teria palavras mais fiéis.

O que nos traz ao cenário dos trópicos após o dia 20 de janeiro. Araújo pode até deixar o cargo em uma reforma ministerial cogitada para fevereiro, após as eleições dos novos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Mas a sua avaliação é a do presidente Jair Bolsonaro.

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Ninguém espera que a posse de Biden venha a pacificar imediatamente os Estados Unidos. O país está e continuará extremamente dividido. Ninguém duvida, tampouco, que Trump busque os meios necessários para alimentar a radicalização, já em busca de voos futuros.

O fato, porém, é que haverá um novo governo nos Estados Unidos, com maioria na Câmara dos Deputados e no Senado – esta com a ajuda do voto da vice-presidente Kamala Harris, quando as votações terminarem empatadas. O trumpismo permanecerá ativo, talvez de forma ainda mais agressiva após a posse do novo governo.

Vitrine

A partir desse momento, porém, o foco da direita populista mundial se deslocará para o Hemisfério Sul. Sim, ainda existirão os governos ultraconservadores de países como Hungria e Polônia, embora vigiados de perto em suas tentações autoritárias pela União Europeia. Mas eles não têm o peso geopolítico necessário para manter acesa a chama do movimento.

Pois a vitrine mais iluminada da extrema direita populista mundial estará no Brasil. Mesmo após a mudança de poder em Washington, Bolsonaro tem demonstrado que pretende seguir cada passo de Donald Trump – especialmente no sentido de manter-se no poder após as eleições de 2022, mesmo que as urnas não o indiquem vitorioso.

Trump disse que as eleições nos Estados Unidos foram roubadas? O mesmo afirma o presidente brasileiro. Trump enxergou fraude na contagem dos votos pelo correio nos Estados Unidos? Bolsonaro vê riscos na urna eletrônica no Brasil. Sem votos impressos, “podem esquecer a eleição de 2022”, disse ele a simpatizantes no mês passado em Santa Catarina.

Trump pediu a seus apoiadores para invadir Washington no dia de oficialização dos resultados do Colégio Eleitoral. “Estejam lá, será selvagem”, tuitou. Foi mesmo. Pois Bolsonaro ainda achou pouco. “Se tivermos voto eletrônico em 2022, vamos ter problema pior que nos Estados Unidos”, previu ele no dia seguinte à invasão do Congresso norte-americano.

Nas palavras de Ernesto Araújo, “grande parte do povo americano se sente agredida e traída por sua classe política e desconfia do processo eleitoral”. Seu chefe estimula essa desconfiança desde já. Caso siga mesmo o roteiro de Trump, Bolsonaro já terá criado o ambiente necessário e propício a questionar o resultado das eleições, se não for o vitorioso.

Se prometer pelas redes sociais algo “selvagem”, como fez Trump, Bolsonaro vai apenas detonar um movimento que terá acalentado durante pelo menos dois anos. E a quem caberá controlar multidões de “cidadãos de bem” enfurecidos? Aos policiais, tratados com o mais dedicado carinho pelo presidente brasileiro.

A versão tropical do populismo de extrema direita se inspira em Trump, mas pretende evitar o seu destino.

Marcos Magalhães escreve no https://capitalpolitico.com/

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