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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A (ir)relevância eleitoral da Lava Jato

Alimentou-se em setores da sociedade a ilusão de que, depois da Lava Jato, nada seria o mesmo na política brasileira.

Por Helena Chagas 26 jul 2018, 14h00

As águas de março de 2015 trouxeram uma enxurrada: a tal “lista de Janot”, com os nomes citados nas delações da Lava Jato quando esta atingiu em cheio o mundo político, de A a Z, ampliando um foco que, até então, havia mirado sobretudo o PT. A lista com os pedidos de abertura de investigação do Procurador Geral foi recebida com enorme estardalhaço por incluir os chefes e os principais líderes do Legislativo. Ao longo dos últimos três anos, em que houve novas listas, investigações e denúncias, alimentou-se em setores da sociedade a ilusão de que, depois da Lava Jato, nada seria o mesmo na política brasileira.

Só que não. A última palavra será, como sempre, do eleitor. Mas o que se vê no cenário de candidaturas para outubro, de cabo a rabo, é mais, muito mais, do mesmo. Pode-se dizer, grosso modo, que hoje quem não está preso é candidato.

Não há pudor, escândalo, vergonha ou constrangimento, por maior que tenha sido a recercussão de tantas denúncias na mídia, que os desencoraje – ou a seus partidos – a disputar um novo mandato, ainda que a prerrogativa de foro tenha sido limitada. A julgar pelas pesquisas e articulações eleitorais, muitos têm boas chances de sucesso.

Como vai, por exemplo, o PP, partido que teve o maior número de políticos na primeira lista de Janot? Muito bem, obrigada. Cortejado por Ciro Gomes e Geraldo Alckmin, entrou na negociação do pacote do Centrão, grupo no qual todos os partidos têm acusados na Lava Jato. Optaram pelo tucano, em troca de promessas como a de manter o latifúndio ministerial num eventual governo. O presidente do PP, senador Ciro Nogueira, também alvo de denúncia, tem boa chance de reeleição pelo Piauí. Os líderes na Câmara também.

No Senado, aliás, a Lava Jato parece não ter passado de uma brisa. Também denunciados, os senadores Renan Calheiros (MDB-AL) e Romero Jucá (MDB-RR), por exemplo, vão se reeleger bem. Fernando Collor (PTB-AL) engatou uma pré-candidatura à presidência. Mesmo Aécio Neves, mais machucado pelas gravações da JBS, deve se candidatar e se eleger deputado.

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As candidaturas estaduais também parecem estar pouco ligando para a Lava Jato. No Rio, por exemplo, os quatro principais candidatos sofrem acusações: Eduardo Paes (DEM) e Garotinho (PRP), que andou até preso, foram citados nas delações da Odebrecht; Romário (Podemos) é investigado pelo Coaf por movimentações milionárias e Índio da Costa foi citado na ramificação carioca da operação.

São só alguns poucos exemplos diante da massa de candidatos acusados, denunciados e processados – mas não condenados, o que os habilita legalmente a concorrer nas eleições.

Aí é que está o problema, que passa pela lentidão do STF em julgar os políticos, mas tem sua origem no caráter espetacularizado dado à Lava Jato desde seus primórdios em Curitiba. Ao misturar acusações por crimes de corrupção, como pagamento de propina e direcionamento de licitações, a outras menores, como as que envolvem exclusivamente o caixa 2 de campanha, a força tarefa da Lava Jato jogou a todos no mesmo saco.

Ao criminalizar todo o mundo político, de forma fundamentalista e espetacular, manteve o joio misturado ao trigo. Agora, ninguém separa mais. Infelizmente, não dá para jogar o saco inteiro fora, sob o risco de a democracia morrer de inanição. O eleitor terá que ir às urnas e vai acabar engolindo pelo menos uma parte desse mingau indigesto.

 

Helena Chagas é jornalista desde 1983. Exerceu funções de repórter, colunista e direção em O Globo, Estado de S.Paulo, SBT e TV Brasil. Foi ministra chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (2011-2014). Hoje é consultora de comunicação

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