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Noblat Por Coluna O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

A cidade cercada (por Tânia Fusco)

Votos e milícias

Por Tânia Fusco Atualizado em 18 nov 2020, 19h44 - Publicado em 17 nov 2020, 13h00

O Rio de Janeiro, lindo, segue fiel ao seu destino de eleger péssimos governantes – uns porque ladrões, outros porque inoperantes, ou os que somam as duas coisas e ainda galopam na fé e no medo dos habitantes das comunidades pobres da cidade.

Estudos feitos pela Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos apontaram que, até o final de 2019, 41 quadrilhas de milicianos dominavam 25,5% dos bairros do Rio – 57,5% da superfície territorial da cidade, onde estão 31,1% dos habitantes do município – 2 milhões de pessoas.

Tem mais. Distintas facções do tráfico também comandam 55 dos bairros mais pobres da capital, onde vivem 1,5 milhão de pessoas. Ou seja, o tráfico ocupa mais bairros, mas de população menor do que as áreas das milícias.

As milícias do Rio de Janeiro acumulam poder político, econômico e social – controlam serviços essenciais como de transportes, distribuição de gás e TV a cabo. E também votos. Aprenderam e superaram os desmandos do tráfico. E ainda somam parceria estrutural com a polícia, interferindo inclusive nas operações de segurança.

Permeando os dois grupos há o poder dos pastores. Mais antigo. Com seus nada santos pontos vista, definem mocinhos e bandidos das eleições. Sem cerimônia, às claras e no palco/palanque de suas igrejas, apontam o caminho do voto aos seus obreiros fieis.  Nas eleições, o dízimo de ouro é o voto.

Na cidade do Rio de Janeiro, há décadas, comunidades inteiras votam em quem milícias, pastores e tráfico apoiam. Ali, a chapa esquenta e o coro come, se o numero de votos não corresponde ao esperado. Primeiro saliva e fake news, depois pólvora, que por lá come solta.

Mesmo documento da Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos, em outubro,  mais uma vez, alertou para a articulação de milícias com nichos do Poder Executivo — sobretudo prefeituras — e casas legislativas da Região Metropolitana do Rio.

Nada é novidade. Espantosa é a naturalidade com que é tratada a questão milícias, sua violência e seus poderes.

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E, na cidade cercada, o voto do mando das milícias, dos pastores e do tráfico tem definido eleições. Para cada Marielle, há muitos Carlos Bolsonaro “bons de voto”. Um Crivella, perfeito prefeito anódino, inoperante e arrogante, pode sim ganhar segundo mandato. God!

 

Apagão.

O Amapá segue no escuro. Duas semanas. Revolta só dos diretamente atingidos. Governo, Congresso e Justiça seguem observando – de longe. Como se o escuro de um estado inteiro, por esse longo tempo, fosse tão normal, natural como a existência das milícias cariocas.

Reação.

A parte muito boa das eleições do domingo foi a vitória de 25 trans. Também a derrota de candidatos ungidos pelo capitão. Parece, nós, os maricas de norte a sul, resistimos, insistimos, e, devagar, avançamos.

Parte boa 2, maricas ou não, os militares vão descobrindo que não dá muito certo general bater continência pra capitão.

 

Tânia Fusco é jornalista 

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