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Woody Allen, você está cancelado

'Cassar o palanque' não é defesa de direitos, mas tola perseguição

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 13 mar 2020, 10h41 - Publicado em 13 mar 2020, 06h00

Em que momento a grande corrente liberal, da qual a esquerda clássica é uma das manifestações, se tornou o seu oposto? Em que momento o conservadorismo arrebatou uma das mais poderosas bandeiras da corrente contrária, a defesa da livre manifestação, dos livros provocadores e dos palanques abertos a quem quisesse subir neles, nem, ou principalmente, que fosse para pregar a derrubada da ordem constituída ou das autoridades que determinam quem pode falar e quem deve enfiar a viola no saco?

Talvez, no futuro, um processo que levou décadas para se consolidar seja simplesmente exemplificado pelo caso de Woody Allen. A editora Hachette já estava soltando sua autobiografia, Apropos of Nothing. Pressionada por protestos dos próprios funcionários e, principalmente, de uma de suas maiores estrelas, Ronan Farrow, o filho rompido com o pai, amarelou. O livro não vai sair para não pegar mal para a editora.

Como é possível que mulheres e ex-homens transmutados tenham virado perseguidores?

Woody Allen é um dos personagens mais difíceis de defender. Apaixonou-se pela filha adotiva da ex-mulher, Mia Farrow, e esperou que ela fizesse 18 anos para assumir o caso. O estado de guerra familiar permanente perdurou, entre altos e baixos, com outras acusações de abuso contra outra filha adotada, na época com apenas 7 anos. Voltou à linha de frente quando Ronan, que adotou o sobrenome da mãe, expôs as barbaridades praticadas por Harvey Weinstein. É perfeitamente possível não gostar de Woody Allen e ao mesmo tempo reconhecer a explosão de genialidade do início de sua carreira, o humor autocentrado e autodepreciativo que se tornou uma escola, com desdobramentos como Seinfeld e Larry David. Mas é impossível aceitar que suas memórias sejam simplesmente tiradas de um ar no qual nem haviam entrado. A editora poderia ter dito que não se interessava pelo livro. Abandonar um projeto já no fim do caminho reflete mais que o pavor dos tribunais virtuais. É sinal de que a liberdade de expressão deixou de ser um valor supremo e venerado nas instituições intelectuais e acadêmicas. Em nome de conceitos doentiamente pervertidos sobre correção política, tornou-se moda “cassar o palanque” de personalidades que pensam de maneira diferente.

Dois exemplos menos divulgados coincidiram com o caso de Woody Allen. Um foi o cancelamento de uma palestra em Oxford de Amber Rudd, ex-ministra britânica do Interior, a pedido de uma associação de estudantes mulheres, por causa do escândalo de deportação irregular de imigrantes caribenhos. O outro foi de uma professora de Oxford, Selina Todd, também cortada de um evento voltado para mulheres. É um episódio mais enlouquecedor ainda. Feminista e esquerdista, a professora é do pequeno grupo que contesta a equalização plena de direitos entre mulheres biológicas e trans, incluindo o de hospedagem em abrigos para vítimas de violência doméstica. Por causa disso, precisa de proteção policial para ela e os filhos, ameaçados de morte. Como é possível que mulheres e ex-homens sexualmente transmutados, com tanto histórico de perseguição, tenham se transformado em perseguidores? “É só por estupidez que alguns podem estar tão seguros de si mesmos”, dizia o fenomenal mestre do absurdo Franz Kafka, frequentador de bordéis e louco por pornografia. Logo vai chegar a vez do processo virtual dele?

Publicado em VEJA de 18 de março de 2020, edição nº 2678

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