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Vladimir Putin decreta: só se chama champanhe se for feito na Rússia

A denominação furiosamente defendida pelos franceses vai pelo ralo e, numa cruel ironia, tem que ser rotulada como espumante

Por Vilma Gryzinski 7 jul 2021, 05h45

Nada como o poder absoluto para gerar decretos que entram para a história pelo exagero e pelo ridículo.

Um pequeno mas ilustrativo exemplo aconteceu na sexta-feira, quando Vladimir Putin decidiu estender o manto do protecionismo sobre o Shampanskoye. Desde então, oficialmente só se pode chamar de champanhe o vinho espumante feito na Rússia

Para suprema humilhação dos franceses, que lutam no mundo inteiro para que champanhe só possa ser uma designação dada aos vinhos borbulhantes feitos na região de Champanhe, seu produto passou a ter a palavra obrigatória “espumante” no rótulo.

A resistência francesa durou menos de 48 horas. Depois de ameaçar suspender as vendas, a Moët Henessy, braço do gigantesco conglomerado de produtos de luxo LVMH, assinou a rendição. Informou que “sempre respeitou as leis dos países onde opera” e que as  vendas seriam retomadas “assim que fosse possível fazer as mudanças de rotulação”.

Assim, uma canetada autoritária de Putin enterrou uma batalha de muitas décadas em defesa da Denominação de Origem Controlada exclusiva para os 360 produtores de champanhe da região de Champanhe, onde as uvas pinot noir, meunier e chardonay, alimentadas pela composição única do solo e o clima perfeito para dele arrancar o melhor, criam o produto que levou o monge dom Pérignon a chamar correndo os outros religiosos do mosteiro onde as borbulhas vieram ao mundo: “Venham depressa, estou sentido o gosto de estrelas”.

A lenda hoje anda desacreditada, mas o vinho estrelado movimenta 5 bilhões de dólares por ano, um pouco mais da metade em exportações.

Mais de 120 países reconhecem que champanhe tem que ser de Champanhe. Os outros são espumantes ou frisantes. A Rússia nunca deu muita bola para essa exigência, mas a virada de mesa agora cria uma situação absurda. 

O correspondente do Le Monde em Moscou disse que a canetada em favor dos produtores locais é especialmente positiva para um amigo de Putin, o banqueiro Yuri Kovaltchuk, que produz um espumante chamado Novy Svet na Crimeia, a península que pertencia à Ucrânia e foi anexada pela Rússia em 2014, no mais ostensivo ato do neoimperialismo sob a égide de Putin.

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Os espumantes consumidos na Rússia já estão na segunda encarnação. Antes, eram provenientes, em grande parte, da Geórgia, uma ex-república soviética que se tornou independente e tem péssimas relações com a Rússia.

Josef Stálin era da Geórgia e foi por um capricho seu que o vinho espumante local se transformou no “champanhe soviético” – ele queria usar como instrumento de propaganda a popularização de um produto de luxo.

Para permitir a produção em larga escala, o método francês da fermentação em garrafas foi substituído por tanques pressurizados, diminuindo o tempo de maturação de três anos para um mês. 

Vinhedos, vinícolas e depósitos – muitos destruídos durante a revolução como símbolos do domínio burguês – foram expandidos pelo sistema de planejamento central rígido. Os diretores que não cumprissem as metas de produção corriam o risco de ser rotulados como inimigos do povo, com as conhecidas e tétricas consequências.

A beberagem adocicada, “batizada” com substâncias conservantes, se tornou conhecida como Sovetskoye Shampanskoye. Durante as décadas soviéticas, tornou-se o terror de visitantes oficiais, submetidos a brindes com o champanhe georgiano.

Agora, Putin deu uma espécie de título de nobreza ao Shampanskoye.

Detalhe: fora da esfera dessas ocasiões oficiais, onde os brindes são obrigatórios, ele não bebe. 

Mas já disse que quando se viesse a se aposentar, hipótese difícil para quem já se garantiu a vitaliciedade no poder, gostaria de trabalhar na vinícola Abrau-Dyurso, propriedade de outro amigo, o líder empresarial Boris Titov. As ações da empresa chegaram a subir mais de 7% depois da canetada da sexta-feira. Dá para abrir vários espumantes.

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