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Viva o touro e até a mãe dele; que se dane o toureiro

Reação violenta à morte de espanhol na arena indica que o espetáculo de sangue não tem muito futuro pela frente

Sangue na areia: Víctor Barrio, morto com chifrada no tórax e condenado nas arenas virtuais

Sangue na areia: Víctor Barrio, morto com chifrada no tórax e condenado nas arenas virtuais

A tourada é a única arte em que o artista corre o risco de morrer, escreveu Hemingway numa época em que ainda era aceitável, fora da esfera hispânica, celebrar o ritual de sangue e não existiam as instalações de Marina Abramovic. Na era das arenas virtuais, a morte do toureiro Víctor Barrio foi tão celebrada que a página dele numa rede social precisou ser eliminada.

Agora, circula uma campanha pela mãe do touro. Pela tradição, ela tem que ser sacrificada para que a linhagem do toro asesino , como os espanhóis chamam o animal que mata um toureiro, não se reproduza. Segundo os criadores, desolados com a morte do toureiro, a vaca já havia ido para o matadouro, por idade. Defensores dos animais ficaram mais revoltados ainda.

Lorenzo, o magnífico animal de pelagem preta salpicada, evidentemente já não existe mais. Nenhum touro sai vivo de uma tourada.

Com toda a coragem e a habilidade exigidas para dançar a poucos centímetros de um animal de 500 quilos e chifres afiados como punhais, a vantagem está do lado do toureiro. Antes da cena final, os picadores, a cavalo, enfiam lanças na musculatura dorsal do touro e estudam seu comportamento. Depois, os banderilheiros o enfraquecem ainda mais com espetos coloridos no cangote. O touro, cansado e ferido, passa a atacar de cabeça baixa.

A vantagem é tanta que Víctor Barrio foi o primeiro matador morto numa arena espanhola desde 1987. Todos os que entram na arena são chamados de toureiros e apenas poucos chegam ao ápice como matadores, aqueles que enfiam a espada depois do balé mortal.

Uma única chifrada de Lorenzo cortou a aorta do matador e chegou ao pulmão. A morte de Victor Barrio ampliou o choque cultural entre os defensores apaixonados, embora em número declinante, do espetáculo que remonta à tauromaquia da antiguidade e o número muito maior de pessoas que se revoltam diante da morte de um animal por esporte ou para deleite do público.

O sentimento de solidariedade por animais de grande porte e poder simbólico, como o leão morto por um dentista americano em caçada no Zimbábue, talvez reflita o desamparo dos humanos frente a forças superiores. Resulta também do nobre desejo de proteger os mais fracos – mesmo quando estes sejam capazes de eliminar bichos humanos de um só golpe.

O afeto por animais selvagens, relativamente recente na história dos bípedes sem pelo obrigados a “fugir do leão” durante a maior parte de sua trajetória, resulta em reações que podem ser perturbadoras.

Quando funcionários do zoológico de Cicinnatti tiveram que matar um gorila macho chamado Harambe para salvar um menino de três anos que havia caído no seu recinto, houve uma onda de condenação que ultrapassou a consternação natural. A polícia chegou a investigar a família, por suspeita de negligência. Antes que se soubesse que o menino é negro, falou-se até em ato de violência decorrente da supremacia branca.

É difícil imaginar que as touradas, eliminadas ou controladas em muitos países, tenham um futuro longo pela frente. A repulsa que o sofrimento dos animais provoca acabará provavelmente por confiná-las aos quadros de Goya, aos livros de Hemingway e à paixão de aficcionados como Antonio Lorca. Ele escreve sobre touradas para o jornal El Pais e fez um comentário altamente emocional sobre a morte de Barrio e a profissão daqueles que decidem “dedicar sua vida a uma vocação quer busca a glória pelo caminho mais próximo do fracasso”.

Victor Barrio, que segundo os especialistas era um matador apenas mediano, não terá um lugar de destaque nessas memórias. No fim, talvez, Lorenzo acabe sendo mais lembrado.

 

 

 

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